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Educação em tempos de pandemia

Mais de 38 milhões de alunos deixaram de frequentar as instituições de ensino no Brasil em 2020


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Por Ana Cristina Ribeiro, Núria Coelho e Paulo Teixeira, jornalistas

Com a realidade da pandemia causada pelo novo coronavírus, escolas em todo o mundo tiveram suas atividades presenciais suspensas em 2020, dando espaço para o ensino remoto que contribuiu para que o prejuízo educacional fosse o menor possível. Cerca de 39 milhões de alunos deixaram de frequentar as instituições de ensino no Brasil e uma boa parte desses alunos não teve acesso às aulas remotas porque não possui os recursos necessários para o acompanhamento de aulas online. De acordo com o relatório do Banco Mundial, mais de 1,5 bilhões de alunos ficaram sem estudos presenciais em 160 países. Esse cenário fez com que muitos gestores escolares buscassem saídas emergenciais para continuar as atividades. O suporte remoto de ensino deu à educação a chance de continuar. Diante desta realidade, que ainda está muito presente, queremos destacar aqui os impactos negativos e positivos que essa mudança trouxe para a educação.

Adaptar-se ao novo, viver uma nova realidade

O desafio da ausência dos alunos nas aulas remotas não é o único problema deste novo momento da educação. Para o professor Lucas Fonseca, gestor educacional do Grupo Educacional Faveni, a qualificação dos professores para este novo momento é também um agravante: “A nova realidade impõe para nós um novo momento da educação. Esse aluno que ficou afastado durante a pandemia, nós precisamos resgatá-lo, mas como manter um aluno que por causa das aulas remotas está desmotivado?

Como olhar para o desempenho do professor e perceber que esse professor precisa ser novo, que ele precisa ter uma nova conduta e uma nova performance? Então, quando se fala sobre os prejuízos causados na educação pela ausência dos alunos nas aulas, fala-se também no desafio em manter os que ficaram”.

A desigualdade social também foi um fator de relevância para o acesso às aulas. Muitos alunos desistiram da escola em 2020 e outros que continuaram, ficaram sem conseguir acompanhar com êxito o processo das aulas. A falta do acesso à internet, a falta de equipamentos como celular e computador foram pontos fortes, o que intensificou uma questão que existe desde sempre, como relata o professor Lucas: “O ponto de reflexão é como combater a desigualdade social que já era evidente antes. Um aluno que não teve acesso às aulas digitais porque não tinha internet em casa já era prejudicado antes. Então, será que só agora teve essa desigualdade social? Será que a desigualdade social só foi percebida na pandemia, ou é uma questão que deveríamos ter percebido antes? “Além das questões de infraestrutura e conectividade, a implementação de novas modalidades de ensino evidenciou a necessidade de preparação dos professores e gestores de escola para essa realidade. A implantação de novas modalidades, trabalhar a educação digital, compreender com atrair a atenção do aluno para uma aula digital foram os maiores desafios enfrentados na educação: “Nós, professores, não estávamos preparados para isso. O mundo já estava diferente e nós não percebemos. Se pararmos para observar, nada foi criado durante a pandemia: as mídias sociais e as plataformas digitais já existiam. O que

nós fomos obrigados a fazer como educadores foi nos adaptarmos a isso. Então, a despreparação de professores e gestores escolares para essa realidade foi a maior evidência que nós tivemos, pois a educação ainda não tinha sido atualizada”, reforçou Lucas.

O professor também apontou que o feedback entre aluno e professor também ficou comprometido no novo cenário: “Às vezes o professor está tão preocupado em passar o conteúdo, em manter o aluno conectado que ele não está nem pronto para perceber o feedback. A pandemia veio para colocar à prova a nossa capacidade, a nossa performance.

Provocar todos nós educadores a viver um novo momento. Uma nova era; um novo tempo requer uma nova pessoa. Se a pandemia fosse uma professora o maior aprendizado seria: Adaptar-se ao novo, viver uma nova realidade.”


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Um novo tempo para a educação

Thiago Miranda é professor de artes, filosofia e sociologia no Ensino Fundamental II e Ensino Médio e estuda mestrado em educação e psicanálise. Ele olha confiante para o futuro, mas ressalta que o ensino remoto é diferente de ensino à distância: “Foi uma situação emergencial que entendemos como ensino remoto, até porque o ensino à distância exige um planejamento do professor, uma plataforma específica e até um contrato específico. Nenhum de nós estávamos preparados para esse novo cenário. Foi algo complexo e repentino para a educação. Num primeiro momento a gente viu alunos cheios de atividade para fazer, foi uma fase de adaptação também”, relata.

O arte-educador que atua na rede pública e privada destaca a diferença de acesso entre as duas realidades: “A questão não são os meios, mas sim a dificuldade de acesso. Alunos da Educação para Jovens e Adultos (EJA) sofreram muito impacto, pois já são alunos com bastante dificuldade e o ensino remoto dificultou ainda mais o acesso deles às aulas. Houve muita desistência, o que é triste. Por outro lado, podemos avaliar o trabalho realizado pela escola pública e particular efetivamente satisfatório.”

Thiago acredita que esse novo momento foi inovador para a educação: “De um dia para o outro você viu professores se reinventando na sua prática docente. Professores sendo treinados, aprendendo e se atualizando. Esse movimento foi muito crescente na educação. Certamente esse fenômeno atingiu a educação de forma muito potente e com certeza o uso da tecnologia nas escolas será mais efetivo”.

Além da atuação nas aulas, Thiago Miranda também é pai e teve problemas para ensinar os filhos: “Eu como professor tive muita dificuldade de ensinar os meus filhos porque as relações se confundem e é comum que isso aconteça. Acredito que um caminho para fazer essa educação remota dar certo é os pais se sensibilizarem e irem em busca do professor do seu filho. Essa parceria com o professor tende a somar na educação dos filhos. Muitas vezes os pais estão com o filho num processo de alfabetização e não têm ali uma técnica para poder ajudar a criança no processo de ensino e aprendizagem. A dica que eu dou é essa: buscar o professor e deixar que esse enlace aconteça de modo mais efetivo na vida das crianças”, concluiu.

Qualidade e eficácia no ensino

Na cidade de Ervália em Minas Gerais o colégio particular Cener manteve sua rotina adaptando-se ao novo cenário. No domingo, 15 de março de 2020, a diretora Edilene Silva recebeu a notícia do fechamento das escolas públicas e privadas por causa da pandemia. Naquele domingo, Edilene precisou decidir como seriam os próximos meses de aula. No dia seguinte, ela se reuniu com sua equipe de educadores e decidiram usar uma plataforma de ensino que já existia no plano de aula da escola, a plataforma Positivo 1 que, apesar de ter sido pouco usada, era o meio digital imediato que eles tinham para oferecer conteúdo aos alunos: “Inicialmente nos preocupamos com a questão pedagógica e didática. De como os alunos acompanhariam os conteúdos, mas a nossa equipe foi excelente. Conseguimos dar conta de todo o conteúdo, inclusive conseguimos alfabetizar os nossos alunos da fase 2. A equipe docente esteve sempre muito empenhada. Houve dias de muita alegria, dias de muito choro pela angústia desse novo cenário, mas acima de tudo de muita aprendizagem”, relata Edilene.

O colégio paralisou apenas um dia e, em 17 de março, as aulas passaram a ser remotas. Segundo a diretora, a escola não teve perdas de alunos nesse período online. O colégio manteve o mesmo nível de ensino e conseguiu se manter financeiramente nesse tempo. Mesmo diante dos desafios deste novo momento da educação, o Colégio Cener conseguiu manter a qualidade do ensino e evoluiu com novos projetos como a Sala Virtual e o Projeto Árvore, que é uma plataforma de leitura. A escola teve um bom relacionamento com os pais e alunos nesse tempo e essa parceria ajudou a escola estreitar os laços.

Ao final do ano de 2020 a escola foi reconhecida pelo município como o colégio mais atuante do ano e foi referência para outras escolas em termos de organização e atuação rápida.

Sobre o retorno às aulas presenciais para 2021, Edilene afirma que existem projetos prontos para esse regresso, com todos os cuidados necessários, todavia, ainda é cedo para falar quando isso irá acontecer: “É taxativo dar uma resposta pronta para os pais, mas já temos prontas cartilhas com recomendações e cuidados para que o retorno presencial aconteça com segurança. Temos projetos de criar conselhos para orientar e conduzir da melhor forma na implantação desse sistema de segurança. Então, temos uma relação de iniciativas que prevê o retorno presencial com segurança, contudo, assim que for decretado o retorno presencial das aulas, vamos retornar com calma. Não vamos atropelar a situação se não tiver o mínimo de segurança para oferecer aos alunos”, conclui.

O ensino remoto requer uma reflexão sobre metodologias. É importante os professores passarem por um treinamento para terem uma boa atuação nas aulas remotas. A preparação do professor para o ensino digital nunca foi tão essencial como agora, além de estratégico e necessário traz uma nova era para a educação e inovar é o caminho mais certo para essa realidade, segundo o professor Lucas Fonseca: “Talvez a maior inovação que devemos ter em 2021 é a habilidade de acreditar em nós mesmos e que tudo isso vai passar. A pandemia pode parecer maior, mas não será o primeiro ou o último desafio que vamos ter que enfrentar. É hora de nos fortalecer ainda mais, nos conectar com o verdadeiro sentido da educação, a essência da educação. Acreditem! Fortaleçam-se! E lembrem-se: Jamais voltaremos ao normal, certamente voltaremos melhores”.

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