Reportagem

Um dia para os avós

Papa Francisco instituiu o Dia Mundial dos Avós e dos Idosos, celebrado no quarto domingo de julho a partir de 2021

Escrito por Ana Cristina Ribeiro e Núria Coelho

26 JUL 2021 - 00H00 (Atualizada em 26 JUL 2022 - 12H27)

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Dentro desse contexto do Ano da Família Amoris Laetitia, o Papa considerou que é essencial um dia para celebrar os avós e relembrar o significado deles em nossas vidas. Avós são as memórias mais lindas que guardamos, são as raízes da nossa história, uma joia preciosa para a família.

Mesmo quando deixam de existir, as histórias compartilhadas na infância costumam acompanhar quem tem a sorte de viver essa relação afetuosa com os avós, afinal, conforme o filósofo Norberto Bobbio disse: “Somos aquilo que lembramos”.

As experiências compartilhadas com eles durante a infância permanecem por tempo indeterminado. Os idosos são os portadores de experiências vividas – brincadeiras, cantigas, costumes, e essas tradições marcam a história e a vida das pessoas.

O ponto de partida do Pontífice para dedicar um dia para os avós e idosos é a Festa da Apresentação de Jesus no Templo, celebrada em 2 de fevereiro, quando dois idosos, Simeão e Ana, iluminados pelo Espírito Santo, reconheceram Jesus como o Messias (cfr. Lc 2, 22-39).

Para Silvonei José, jornalista do Vaticano, “o cuidado pastoral dos idosos é uma prioridade que não pode mais ser adiada, para cada comunidade cristã. Na Encíclica Fratelli Tutti, o Santo Padre nos recorda que ninguém se salva sozinho e nessa perspectiva, então, é necessário valorizar a riqueza espiritual e humana que foi transmitida através das gerações”.

A instituição dessa celebração é uma iniciativa absolutamente coerente com o pontificado de Francisco. Silvonei recorda que desde o início o Papa já trazia em suas reflexões um olhar mais cauteloso para os avós e idosos: “Na Jornada Mundial da Juventude, no Rio de Janeiro, naquele 26 de julho de 2013, o Papa já convidava a esse diálogo, a essa acolhida dos idosos. Um diálogo com as gerações mais novas. Falava da importância de que houvesse sempre uma profunda unidade entre os idosos e os jovens, porque nós sabemos que muitas vezes eles são descartados pela sociedade, uma sociedade que tende a não incluí-los nas suas reflexões e não os considera protagonistas da Igreja e nem da transformação social”.

Amar docemente os netos

Os avós têm sido grandes aliados da família, ajudando na criação e na sustentação dos netos. Aliás, uma das grandes ausências que as famílias têm sentido durante a quarentena é a possibilidade de compartilhar esse cuidado.

No caso da aposentada Madalena Sueli Shimit foi diferente. Ela é avó do Diogo, de 8 anos, e da Manuela, de 5 anos, e esteve muito presente durante a pandemia, pois compartilham da mesma casa e o contato foi inevitável nesse tempo.

Arquivo pessoal
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A avó Madalena auxilia os netos Diogo e Manuela nas lições

Madalena tem acumulado os trabalhos da casa e o cuidado com os netos, pois os pais precisaram sair para trabalhar: “Moramos todos juntos no mesmo quintal, então não teve como se distanciar tanto e ser avó é amar docemente os netos, sobretudo nessas horas difíceis”.

O desafio de acompanhar as aulas pela internet foi uma transformação na vida de Madalena: “Em 2020 eu estava no segundo ano do ensino fundamental, pois tive que acompanhar as aulas com o meu neto Diogo. Em 2021 voltei para a pré-escola onde está a minha netinha, Manuela de cinco anos. Foi preciso praticar muito a paciência, pois as crianças nos desafiam a todo instante, mas é uma nova situação, um novo momento, então eu estou reaprendendo”.

Madalena seguiu a rotina com alegria e otimismo, confiante de que seremos melhores depois de tudo: “O mais difícil foi manter o nosso equilíbrio e o das crianças. Estamos vivendo um tempo em que a tristeza paira ao nosso redor, é como uma única nuvem em nossas cabeças. Precisamos sempre ser solidários. Estamos todos precisando de um olhar carinhoso, de uma mão estendida, todos precisam de amor e respeito. Tudo vai passar, só temos que acreditar!”.

Um olhar diferente

Esmeralda Aparecida Belegi é professora aposentada e avó da Giovanna, que está com 20 anos, e da pequena Mariah, de cinco anos. Ficar sozinha não foi tão difícil para ela, pois ela ficou viúva cedo e já vivia só em seu apartamento desde que o filho mais novo se casou.

Arquivo pessoal
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Vovó Esmeralda com a neta Giovanna

O que foi mais difícil para Esmerada foi não ter a liberdade de realizar as atividades que ela praticava normalmente, inclusive o trabalho voluntário na Milícia da Imaculada de responder as cartas enviadas pelo mílites.

No início, as conversas com a neta Mariah eram apenas por vídeo, ou pessoalmente de longe. “Foi muito difícil no início. Quando meu filho a levava para eu ver só podia vê-la de longe. Ela corria para me abraçar e eu não podia abraçá-la. Ter medo de abraçar a própria neta foi uma das situações mais difíceis da minha vida” ressalta Esmeralda.

A neta mais velha, a Giovanna, mora no litoral paulista e manteve o contato com a avó por vídeo como era de costume, então a situação não foi tão dolorosa quanto com a neta mais nova que ainda não entendia o que estava acontecendo.

“Mesmo com toda essa turbulência eu consegui sentir a proteção e a paz de Deus”, relata a vovó Esmeralda que deixa uma lição preciosa para todos: “Parece que antes fazíamos tudo de forma automática, agora temos tempo para observar o que fazemos e como fazemos”. Que essa possibilidade de olhar ao redor com mais atenção ajude a todos nas atividades profissionais e, sobretudo, a olhar com mais atenção para a família e, em especial, os avós e idosos que têm tanto para transmitir.

Solidão e insegurança

Tornar-se idoso, chegar à chamada Terceira Idade, é um período de grandes transformações para o indivíduo. Uma série de mudanças físicas, psicológicas e sociais marca essa nova fase. Chega a aposentadoria, a propensão a doenças e a redução da independência, trazendo a sensação de fragilidade à pessoa idosa.

Leia MaisVítimas ocultas da pandemiaMães da Sé, luta e esperançaO desafio de recomeçarRacismo: uma questão socialRetratos da sociedadeCaminhos para a melhor idadeSônia Eustáquia, psicóloga e psicanalista com pós-graduação em Neuropsicologia, considera a solidão como um grande vilão para os idosos. “A pandemia impactou muito o sentimento de solidão e, por isso, o estado depressivo e de ansiedade tem aumentado muito. O distanciamento dos filhos e dos netos por causa da pandemia também gerou muita tristeza”.

As idas ao mercado ou à farmácia foram limitadas e tudo isso agravou o sofrimento, mas, conforme indica Sônia, “veio a vacinação que ajudou muito a melhorar o contexto e deu uma sensação de segurança, mas muitos idosos não foram tomar a segunda dose e é preciso consciência de que se não tomar em as duas doses certinho não estarão imunizados”.

Para a psicóloga, os meios de comunicação, como a Rádio Imaculada, ajudaram muito a amenizar a insegurança que esse tempo impôs. “Ocupar o tempo rezando, lendo e preenchendo a mente com coisas boas tem sido um grande refúgio para as pessoas idosas”, finaliza.

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Um lar, uma família

Da mesma forma que as pessoas idosas foram consideradas grupo prioritário para a vacinação, também precisam ser reconhecidos com prioritários para abrigo e proteção. Juliana Teixeira é a responsável pela residência Viva Bem, situada na Zona Oeste da capital paulista. “A nossa proposta é ser uma moradia, o objetivo é que os nossos idosos se sintam em casa num ambiente acolhedor, familiar e aconchegante. A minha preocupação é que eles não se sintam num ambiente hospitalar ou numa clínica”, explica Juliana.

Com a pandemia o Viva Bem teve que se adequar, respeitando as medidas de segurança e distanciamento social. “A gente teve que agir muito rápido para preservar a vida dos nossos idosos, mas a nossa preocupação também era com a saúde mental deles. Somos um ambiente família, família Viva Bem, então conseguimos amenizar isso com os cuidados, relação de afeto e carinho, mas infelizmente não pudemos liberar as visitas e passamos a usar o recurso digital, com a ligações por vídeo.”

As visitas estão sendo retomadas aos poucos, mas ainda por meio de janelas. A casa atende 28 idosas e todas estão vacinadas. A equipe multidisciplinar do local também está imunizada e isso tornou as atividades realizadas pela casa mais seguras.

Um dia para celebrar!


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O tema escolhido para o primeiro Dia Mundial dos Avós e dos Idosos é “Eu estou contigo todos os dias” (Mt 28,20) e tem a finalidade de expressar a proximidade do Senhor e da Igreja na vida de cada idoso. É também uma promessa de proximidade e de esperança de que jovens e idosos possam entender-se mutualmente, como pediu Papa Francisco. Por ocasião desse primeiro dia mundial, que acontecerá no coração do Ano da Família Amoris Laetitia, o Papa Francisco presidirá a Missa no domingo, 25 de julho, na Basílica de São Pedro.

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