
Nelson Giovaneli Rosendo dos Santos, um dos fundadores da Fazenda da Esperança, membro da Comissão Pontifícia de Proteção do Menor acompanhou as palestras sobre o Encontro A proteção dos menores na Igreja por meio do canal Youtube do Vatican News e nos explica as motivações e desdobramentos desse evento pedido pelo Papa Francisco, em fevereiro de 2019, em Roma.
Jovem Mílite: O que de mais importante você vê nesse acontecimento que o Papa convocou?
O caminho que a Igreja está percorrendo nestes últimos 30 anos de luta contra o abuso sexual por parte do clero. Esse encontro que teve o título A Proteção do Menor na Igreja, ganhou uma dimensão universal. Algo que antes estava mais focado nos países anglo-saxônicos ou em alguns países onde estourou essa chaga, como o Chile, por exemplo, agora, ganhou força em todas as dioceses do mundo por meio das conferências episcopais.
Como a Igreja é uma grande nave, para mudar o seu rumo, exige-se esforço e coragem, como este que o Papa Francisco fez ao reunir todos os presidentes e também representantes dos superiores de todas as Congregações e também prefeitos de dicastérios da Cúria Romana.
Os passos dados pelos Papas anteriores foram muito fortes. Mas é característico da parte do Papa Francisco o esforço que a Igreja começou a fazer a exemplo do que ele fez ao acolher as vítimas e escutá-las. Esse passo serviu de exemplo e fez com que muitos procedimentos fossem acolhidos e assumidos por muitas dioceses no sentido do cuidado e do acolhimento das vítimas para um processo de cura, libertação e reconciliação.
A partir desse encontro, a tomada de consciência de que a Igreja pode extirpar esse mal vai servir de modelo, apesar do sofrimento e da purificação, para outros seguimentos sociais.
JM: Por que você foi um dos convidados a integrar este momento em saídas para cuidar dos menores.
Quando, no ano passado, o Papa nomeou nove novos membros para a Comissão Pontifícia, a intenção que ele tinha era fortalecer aquilo que fez nascer essa comissão, ou seja, espertos que pudessem servir na comissão como subsídios que para o Papa possa conhecer as melhores práticas para o enfrentamento nesta crise no sentido da escuta das vítimas, no sentido da elaboração das linhas de orientação de cada Diocese, de cada órgão da Igreja no sentido da formação e da educação.
Assim que recebi a nomeação, eu imediatamente entendi quando o Cardeal Male de Boston me passou que o motivo de ser escolhido foi devido à minha experiência de 35 anos na Fazenda da Esperança de escutar vítimas de abusos sexuais. Uma grande porcentagem, em certos lugares até 60% das vítimas das drogas, foi por motivo de sofrerem de alguma forma de abuso físico, sexual, de poder ou de violência.
Essa atitude do Papa de chamar a Fazenda da Esperança, junto comigo, era para oferecer a nossa experiência que fazemos com muitos jovens no sentido da escuta, do acolhimento, do acompanhamento da cura, da libertação, da reconciliação, do perdão, até o ponto de poder ajudar os outros. É uma coisa muito bonita que experimentamos na Fazenda da Esperança quando muitos conseguem se abrir, pois encontram uma atmosfera, um ambiente favorável, onde sentem confiança de poder se abrir.
Aqui está um elemento fundamental na questão do tratamento daqueles sobreviventes, vítimas que sofreram algum tipo de assédio: é a possibilidade de poder falar sobre suas feridas e, portanto, poder experimentar que elas podem ser cicatrizadas.
JM: Além da pedofilia, quais são os outros temas acerca da proteção dos menores que foram abordados no Encontro?
O Encontro se dividiu em três temas fundamentais:
Responsabilidade foi o primeiro tema. O bispo, o presidente da conferência e todos os bispos de toda Igreja tem que, assim que chega uma denúncia, fazer todo o esforço de que seja enfrentada a questão com todas as orientações que já estão estabelecidas nas linhas de orientação e manuais de procedimento que todas as Conferências Episcopais já receberam.
Prestação de contas é o segundo tema, que é o esforço que cada Diocese, cada Bispo ou Superior Geral e Responsável de Comunidade devem fazer para prestar contas às vítimas, às comunidade feridas, aos suspeitos e culpados, de tudo que está acontecendo sem jamais encobrir, nunca cair na tentação de esconder os acontecimentos, sempre cientes que o encobrimento é tão grave quanto o crime.
Transparência é o terceiro tema importante neste processo de enfrentamento desta crise que a Igreja está passando de abuso sexual por parte do clero. A transparência, mesmo que seja dolorosa, é o caminho mais barato ou seja, que tem um efeito e uma solução mais rápida. Quanto mais se fala, obviamente respeitando o período de investigação prévia, se deve respeitar a dignidade. A comunicação de como está o processo é muito importante nesse sentido.
JM: Aqueles que já sofreram algum tipo de abuso em qualquer grau, como podem cuidar destas feridas e não serem eles no futuro os protagonistas de tais ações?
Eles podem receber a possibilidade de falar dessas feridas, dos abusos com pessoas de confiança, que têm experiência e que podem ajudá-los neste sentido, seja no campo espiritual como também no campo psicológico. Desta forma, se eles mesmos passam por esse processo de cura e libertação, perdão e reconciliação, muito dificilmente serão futuros protagonistas de tais ações.
JM: Como os menores devem ser alertados para não serem vítimas?
No sentido de explicar que se algum adulto se aproximar deles e, carinhosamente, com palavras doces, tentar tocar em suas partes íntimas, eles devem entender que isso não é correto. Existem hoje muitos conteúdos com temas educacionais e de formação que previnem e alertam os adolescentes e as crianças neste sentido. Mas sempre deixar claro que se trata de uma atitude incorreta aceitar uma aproximação opressiva de algum adulto seja ele quem for e ficar calado. Alertar no sentido de dar abertura para que a criança sinta-se à vontade e procure um adulto de confiança para conversar sobre o assunto imediatamente.
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