Por O Mílite Em Cultura Cristã

Maria de Nazaré

A Jesus por meio de Maria


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Por Claudia Varotti, professora, historiadora da arte, mestre em ciências da religião e pesquisadora em arte sacra

Há alguns anos eu estava em minha casa e tinha como vizinhos uma comunidade neo pentecostal e, o responsável por liderar aquela comunidade em um determinado dia fez um longo, exagerado e dramático discurso onde afirmava, Jesus sem Maria ainda é Jesus, Jesus sem José também é Jesus.

Sendo eu criada em uma família disfuncional, essa palavra moderna para nos referirmos a um espaço agressivo e inadequado para o desenvolvimento de uma criança, ouvindo aquelas afirmações, fiquei a pensar, será? Será que Maria e José não foram importantes na vida de Jesus? Será?

E desse será, surgiram outros, será que Deus colocaria o Salvador do Mundo nas mãos de uma família disfuncional como a minha? Será que Maria não auxiliou Jesus a entender o mundo a sua volta? Será que José não conduziu o jovem Jesus no cumprimento das regras sociais onde eles viviam? Sendo sido eu uma criança onde essas informações foram negadas ou dadas em contextos e conceitos inadequados. Sei como é difícil caminhar sozinha, o quanto necessitei orar, ler, estudar e, ainda caminho com insegurança pelo mundo, buscando em pequenos passos e tateando entender por onde seguir.

Deus em sua infinita bondade me ofertou o dom da fé e também muitos anjos na forma de amigos, professores ou conselheiros os quais, em meus momentos de deserto vieram ao meu encontro e me socorreram. Se Deus foi tão generoso para comigo, como poderia Ele não cuidar, proteger e ofertar protetores e orientadores adequados ao Salvador do Mundo, aquele que veio ao mundo para termos vida e vida em abundância (Jo 10,10).

Conta a tradição da Igreja que o nascimento de Maria foi assim: “Joaquim e Ana era casados a longo tempo e não foram abençoados com um filho ou filha, em uma comunidade tradicional como aquela onde eles viviam, não terem filhos era sinal de castigo divino, assim Joaquim já em idade avançada foi ao deserto orar e fazer penitência, pedir perdão a Deus por pecados cometidos por ele, sua esposa ou antepassados, estando a jejuar veio um anjo lhe avisar, volte a sua casa pois vocês receberão uma criança”.

Em Nazaré foi criada Maria, filha de Joaquim e de Ana que a receberam em graça divina, entenderam a bondade de Deus para com eles e cuidaram da pequena Maria como se cuida de uma preciosa joia, talvez seus pais não tenham entendido sua missão e a responsabilidade que lhes era confiada, mas se diz no Novo Testamento, “pelo fruto se reconhece a árvore” (Mt 12,33). E a árvore dará um fruto precioso, um fruto que mudará o mundo para sempre, o fruto é o Salvador do Mundo, Maria será responsável por nos permitir conhecer a salvação eterna.

Em um lindo e maravilhoso livro intitulado Os rostos de Maria, o cardeal Gianfranco Ravazi, nos apresenta os diferentes modos de ver Maria observando pelos textos sagrados. No início do livro há uma explicação para as incontáveis músicas, orações, poemas, devoções populares, pinturas e tantas outras formas de nos apresentar Maria. Segundo o autor essas expressões “são fruto de profunda intuição: as Escrituras hebraicas e Escrituras cristãs, o Antigo Testamento e o Novo Testamento estão em íntima conexão, a antiga aliança conduz à nova, a Palavra de Cristo está em continuidade plena e gloriosa com a Palavra de Deus”.

Os ícones bizantinos nos ensinam a contemplar o divino que se apresenta a nós em forma de obra de arte. A cada representação mariana há um tratado mariologico que nos explica como Maria foi fundamental para a vinda do Salvador. Para as primeiras comunidades cristãs e para nós que hoje vivemos uma vida árida, sem aconchego, com tantas dificuldades e observamos muitas vezes, pasmados, as maldades que um ser humano é capaz de fazer para com outro ser humano.

O saudoso Papa Paulo VI recomendou-nos caminhar a Via Pulchritudinis, o caminho da beleza, Maria é a Via da Beleza, sendo uma via acessível a todos, também as almas simples, a qual nos conduz, no final, a doutrina misteriosa, maravilhosa e estupenda, que é a Salvação. Maria é a mulher vestida de Sol, como indica o Apocalipse, onde os raios puros da humanidade se encontram com os raios soberanos, mas acessíveis, da beleza sobrenatural.

Entretanto, não nos deixemos enganar, a Beleza indicada pelo Santo Padre é a beleza que Deus nos oferta em amor e graça, é a beleza de sabermos que somos criados a imagem e semelhança de Deus, mas que em nossa vida cotidiana nos deixamos levar por futilidades, ira, luxuria, avareza e tantos pecados que muitas vezes cometemos e não mais nos preocupamos, não vamos ao caminho da reconciliação, pois todos cometem erros e não devemos nos confessar, porque afinal de contas o padre é também, um ser humano como todos os outros, acreditando que os sacramentos são uma invenção humana para qualquer dominação social ou política ou então, coisa de gente fraca da cabeça e sem cultura.

Talvez por essas fraquezas e tropeções que cometemos em nossa vida cotidiana, Deus nos apresentou Maria, a Maria do Sim a Deus, pois como humana seguiu sempre a vontade de seu Deus, e sendo ela também humana, será nossa Mãe, para nos guiar ao caminho da Salvação que é, seu filho Jesus o Cristo, mas lembremos, Ela é o templo de Deus, não o Deus do Templo. Assim caminhemos com os olhos fixos em Jesus, pois Ele é a Salvação.

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