Por Túlia Savela Em O Mílite Atualizada em 13 MAI 2020 - 11H55

Mãe é sempre mãe, seja na pandemia ou fora dela

Conheça a conciliação de papéis que a nova rotina trouxe às mães e como elas tiraram de letra e até viram vantagens por terem seus filhos próximos, a oportunidade de acompanhar o desenvolvimento deles e ter família reunida

Mãe é sempre mãe. É a ternura encarnada, como costuma dizer Frei Sebastião Benito Quaglio, guardião do carisma da Milícia da Imaculada. (Quando se refere a Nossa Senhora, ele diz que a Imaculada é a ternura de Deus encarnada.) Nas próximas linhas, você acompanhará o efeito do confinamento para uma mãe gestante, uma que teve o bebê durante o início da quarentena, outra com filho que já caminha e se comunica bem, e outra com filhos com idade perto dos dez anos.

O que pude “ver” nessas mamães foi justamente essa ternura, a alegria pela proximidade com os filhos durante o isolamento e a oportunidade de acompanhar sua evolução. Elas se apertam nas horas do dia entre as tantas responsabilidades que lhe foram confiadas e aquelas que elas mesmas escolheram realizar, para sentirem-se úteis, produtivas, recompensadas e favorecer sua família e autoestima com o fruto do seu trabalho. Mas o aperto, para elas, foi tirado de letra e elas contam os segredos para quem ainda não conseguiu se organizar. O mais gostoso foi ver que elas ficaram, no fundo, agradecidas por poder acompanhar de perto o dia a dia das crianças e ver a família reunida.

Para Sheila Roque, de Itaporanga - SP, que atua com psico-educação, em parceria com escolas públicas e particulares da cidade, além de fazer atendimentos de psicoterapia, a mãe é o porto seguro do filho. “Um momento de isolamento gera muita ansiedade e medo e a mãe acaba sendo a fonte que vai ajudar a criança a se manter bem”. Em poucas palavras ela sugere que a mãe se prepare emocionalmente, porque a criança tem de sentir confiança nas suas palavras, ver a segurança no seu comportamento e, para isso, ela tem de estar bem, para passar segurança à criança. “Estruture uma boa conversa conforme a idade da criança. Leve a conversa com otimismo pois, mesmo que elas não entendam o todo, é importante explicar o que está acontecendo. Filtre as informações, pegue o básico e não fique toda hora lendo notícias da pandemia. Foque no que é essencial, na prevenção, lembre que isso tudo vai passar e tire as dúvidas da criança”, indica. A entrevista completa, você encontra aqui.

O que mudou?

Com o advento da Covid-19, alguns cuidados tornaram-se primordiais: higiene, alimentação equilibrada, exercícios físicos. Tudo isso já existia mas passou a ser mandatório. Associados a eles, veio a necessidade do distanciamento social, o que fez a família ficar reunida no seu espaço 24 horas ininterruptas, associando ao convívio familiar o trabalho doméstico (porque muitos ajudantes foram dispensados remunerados ou não) e o trabalho social, digamos assim.

As principais mudanças apontadas pelas entrevistadas foram: o desafio de conciliar o acúmulo dos papéis de trabalhadora, mãe e educadora.

Para Maria Cláudia Carvalho de Andrade, 39 anos, mãe de um menino que fará 2 anos, em uma semana, e de uma menina, que chega em 3 meses, a primeira ação foi cancelar atendimentos para se resguardar e cuidar do filho. A gestante é fisioterapeuta, moradora da Cidade do México e trabalha em meu domicílio. Com a pandemia mantém as visitas mensais do pré-natal e tira dúvidas com seu médico por e-mail. “Costumo usar calça comprida, blusas de manga longa, máscaras, álcool em gel quando chego e saio do hospital e banho ao chegar em casa”. No âmbito emocional, sempre mais sensível para gestantes e no pós-parto, Maria se vê muito entediada, mas nada que comprometa sua saúde. Chegou a ter insônia no começo da quarentena, mas causada por preocupação, pois sua mãe mora em Milão, na Itália.

Experiência singular viveu Daniele Nazário Cruz, 27 anos, assistente administrativa de uma multinacional, moradora de São Bernardo do Campo - SP. Dar à luz em um hospital, em plena pandemia da Covid-19 trouxe a ela e ao esposo Thiago várias sensações: medo, insegurança, alegria e tristeza, pois “foi um momento único em que queríamos nossos familiares e amigos por perto. Porém isso não foi possível. No hospital, as visitas foram restringidas e nos aconselharam a não receber ninguém em nossa casa. Por alguns instantes, nos sentimos sozinhos”. Daniele imaginava que poderia contar com a ajuda de sua mãe ao retornar para sua casa. Mas seu esposo e ela tiveram que se virar: “por incrível que pareça, foi mais fácil do que pensávamos”. Os momentos de mamar se tornaram únicos, com atenção total da mamãe, sem pressa alguma ou interrupções.

As primeiras semanas foram desafiadoras para os pais e a bebê Manuella: adaptação, mamadas, o sono da noite, os banhos. Mas, ao final do primeiro mês, tudo estava bem tranquilo, com os choros decifráveis e os períodos de sono mais regulares. O batizado seria agora em maio, mas vai esperar a crise viral passar.

A jornalista Nayá Fernandes, 33, moradora da zona sul de São Paulo - SP se divide, com auxílio do marido, entre o trabalho e os cuidados com o filho Francesco, de 4 anos. A produção de todas as refeições do dia em casa e o tempo dedicado a brincadeiras exigiu maior atenção dela e do esposo Sergio, desde o início dos distanciamento social. O lado bom foi ver como o pequeno era sempre aberto às sugestões de atividades. “É muito bonito acompanhá-los tão de perto”, afirmou. Outro lado positivo para ela foi constatar o “quanto é importante ter pedagogia, ter disciplina, programar a semana”.

Para Ana Cristina Soares Vaz de Melo, 44, moradora da capital mexicana há 1 ano e 10 meses, diretora financeira de uma multinacional da área médica, o maior desafio foi conciliar a rotina dos quatro moradores da casa: o casal e os filhos de 9 anos, Julia, e 13, Arthur: “Acaba sempre ficando com a mãe essa responsabilidade de conciliar os horários e a rotina da casa”. Mas ela logo lembra o lado gratificante da quarentena: “Vendo o outro lado, apesar da carga que isso me trouxe, estou podendo acompanhar mais de perto a evolução das crianças na escola, estar mais próximo de minha família, fazendo coisas que a rotina regular não me permitia, tal como, hoje, fazemos todas as refeições juntos, o que nos permite estar um pouquinho mais próximos, falamos mais de coisas que gostamos, preparamos o menu do dia, às vezes, vamos todos juntos para a cozinha, e tudo isso é uma delícia e tenho muito que agradecer por essa oportunidade”.

O que não mudou?

Maria Cláudia disse que a dose de disposição e paciência para fazer atividades em casa com o bebê estão mantidas, mas agora vem acompanhadas da frustração por não poder levá-lo ao parque ou à brinquedoteca, que auxiliavam nas brincadeiras. O cuidado e a atenção continuam sendo essenciais.

Para Nayá, o que não mudou foi que ela e o esposo já realizavam teletrabalho, então só precisaram inserir o fato de que o filho não ficaria mais de 4 a 6 horas diárias na escola. Ana Cristina diz que o que não mudou foi a correria do dia a dia. Com a pandemia e por trabalhar em uma empresa que atua no mercado da saúde, seus dias têm sido longos, mas isso não a subtraiu do papel de garantir a organização da casa, a rotina das crianças para o dia etc.

Trabalhar com as crianças por perto

Nayá, acostumada com o home office, costuma mudar de cômodo para realizar seu trabalho “para mudar o ambiente”. Nessas mudanças, foram inseridas pausas mais longas para interagir com o filho, e os minutos dedicados às refeições também foram estendidos, pois é o momento mais favorável para se entreolharem e falar sobre o dia.

No caso da brasileira que mora no México, como seus filhos não são tão pequenos, eles montaram um escritório para cada um e estabeleceram o respeito aos horários de cada membro da casa. “As crianças sabem que quando estou em reunião, não posso ser interrompida. Às vezes me deixam bilhetinhos, para que eu veja nos intervalos e todos os dias à noite revisamos como foi o dia e como se organizaram para o dia seguinte. Às 8h, estamos todos prontos e gerenciando nossa agenda do dia”, relata.

Conciliação de tarefas

O pai é um parceiro excelente para as mães que trabalham fora. No caso de Nayá, momentos antes dedicados à profissão, agora são de revezamento de atenção com o Francesco. “Quando preciso me isolar, meu esposo fica mais tempo com ele”.

Nesse desdobramento, Ana Cristina estabeleceu uma rotina, adequou os quartos das crianças para serem funcionais: cada um ganhou um laptop para atender às aulas virtuais e um programa de e-mail com agenda para cada um gerenciar sua rotina do dia, com horário de classes e códigos de acesso, de forma a dar mais autonomia aos filhos. 

O que deu certo e o que não deu?

“De verdade, acho que as coisas deram mais certo do que eu mesmo esperava”, conta Ana Cristina. Ela atribui o resultado positivo ao fato de ter buscado estabelecer a rotina desde o primeiro dia e à rápida adaptação das crianças à nova realidade. “Foi um superaprendizado para eles: lidar com a tecnologia (laptop, impressora, scanner, e-mail com calendário); terem de ser autônomos; de se organizar para cumprir com as tarefas e aulas; ajudar em tarefas da casa, que geralmente não faziam; e gerenciar o seu tempo” foram algumas das ferramentas que aprenderam a manejar nessa quarentena.

Maria Cláudia reitera que compor uma rotina diária ajuda muito. Entre eles, o dia a dia se resume a: “depois do café da manhã, pegamos um pouco de sol; em seguida, vamos fazer as atividades que a escolinha envia. Terminando isso, vem almoço, cochilo, lanche da tarde e, depois, brincamos na garagem com bola, bicicleta ou de pique-esconde”.

Recomendações de mãe para mãe

Dar ferramentas, mostrar o caminho e desafiar um pouco a capacidade dos filhos é a dica da Ana Cristina. Claro que são aplicáveis à faixa etária dos filhos dela, mas vale o alerta porque a Julia, de 9 anos, na primeira semana, quis ficar trabalhando ao lado da mãe e, a toda hora, a interrompia com perguntas, o que estressou as duas. Na segunda semana, mais segura, a garota migrou para o quarto, e a mãe, ao fim do dia, passou a revisar os avanços do dia e a organizar com ela o dia seguinte. “Foi surpreendente ver que ela dava conta, sim, de fazer quase tudo sozinha. Foi um grande aprendizado para mim. Sempre temos esse lado superprotetor e eles são muito mais capazes do que imaginamos”. Ela sugeriu aos pais que deixem os filhos viverem esse aprendizado: “Cada um em seu tempo, à sua maneira, mas precisamos dar esse espaço a eles”.

Maria Claudia deseja às mães que tenham muita paciência e sugere que mantenham a mesma rotina que o filho já vivia: mesmos horários de comida, dormir e brincar.

Segredo do sucesso

Ana Cristina revela seu segredo: “Tenho tentado fazer os meus dias mais leves apesar de uma rotina pesada, conciliando vários papéis com muito mais horas de trabalho por dia”. E indica alguns passos para se chegar a isso: crie uma rotina e você verá o lado bom das coisas; seja criativo e estabeleça atividades esportivas ou jogos depois do jantar; invente um prato diferente na cozinha e peça sugestões dos familiares; e, sobretudo, aproveite tudo de bom que esse período tem nos dado como oportunidade de valorizar o bem maior, a família. “Apesar de tudo o que a quarentena tem trazido para nós, tenho aproveitado cada minuto dessa possibilidade de estarmos mais perto da nossa família, da rotina dos nossos filhos!”, frisou.

Para a psicóloga Sheila, ser mãe durante uma pandemia é um momento repleto de desafios: conciliar a rotina de trabalho, a educação dos filhos, a convivência na família, tudo sob o mesmo teto, num clima de tensão diante da Covid-19, com grande repercussão e desdobramentos. Então, é importante, manter a saúde mental. A criança, em cada fase etária, exige um comportamento da mãe. “Quando bebê recém-nascido, ainda não entende tudo que está acontecendo. Necessita de um controle maior por parte do adulto. Por isso, tem-se que estar preparado para essa demanda emocional muito grande, que vem com essa exigência muito grande de atenção. Para as crianças maiores, costumo falar para as mães que não subestimem sua criança. Você tem que explicar, na linguagem que ela possa compreender, tudo que está acontecendo ao redor dela, porque a criança está vendo um movimento grande de tensão, o uso da máscara, a necessidade de lavar a mão o tempo todo, o “tira a mão da boca”, o entra-e-sai do adulto com todos esses cuidados e preocupações. Então, não se pode esconder informação. A comunicação é muito importante e ela tem que ser feita de acordo com a idade, de acordo com o desenvolvimento intelectual da criança”.

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