Imaculada Notícias

Onde mora a conexão

Em um Brasil cada vez mais conectado, especialistas defendem que o equilíbrio digital e o afeto são ferramentas essenciais para proteger e fortalecer as relações familiares

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Escrito por Ana Cristina Ribeiro

11 AGO 2026 - 14H37

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Imagine a cena: uma mesa de jantar cheia, pratos servidos, mas nenhum som de conversa. O único ruído é o clique sutil dos dedos nas telas e o brilho azulado refletido nos rostos. Fisicamente próximos, mas digitalmente a quilômetros de distância. O celular, desenhado para encurtar distâncias com quem está longe, muitas vezes acaba cavando abismos entre quem divide o mesmo sofá.

Esse distanciamento silencioso encontra eco nos números mais recentes. Segundo dados do IBGE, o uso da internet no Brasil atingiu a marca histórica de 90,5% da população com 10 anos ou mais, o que representa quase 169 milhões de pessoas conectadas. O celular consolidou-se como o rei absoluto desse acesso, sendo o dispositivo escolhido por 98,7% dos usuários.

Embora o uso tenha disparado entre os idosos, a pesquisa trouxe um dado inédito: a faixa de 10 a 13 anos registrou, pela primeira vez, uma leve queda no acesso. O movimento acende um sinal de alerta e reflete uma preocupação crescente dos pais com o tempo de tela e a privacidade das crianças.

Para compreender como essa avalanche digital impacta o desenvolvimento dos mais jovens, a pesquisa TIC Kids Online Brasil monitora, desde 2012, as oportunidades e os riscos da rede para o público de 9 a 17 anos. Luisa Adib, coordenadora da pesquisa, pondera que o salto no acesso traz ricas oportunidades de aprendizado, mas cobra maturidade emocional.

"O desenvolvimento de habilidades sociais em crianças e adolescentes é um fator crítico hoje. Eles precisam de interações reais para aprender a ler expressões, lidar com frustrações e criar empatia — coisas que o olho no olho ensina, mas a tela camufla." — Luisa Adib, coordenadora da TIC Kids Online Brasil.

Além disso, Luisa aponta que a desigualdade social no país dita quem navega com segurança, criando um abismo na qualidade dessa conexão. Para ela, a solução não passa pelo controle rígido ou pela proibição das telas, mas pela mediação ativa:

Diálogo franco: Conversar sobre o que se vê e faz na rede.

Participação ativa: Pais e responsáveis devem navegar com os filhos, orientando caminhos seguros.

Pacto coletivo: Entender que criar um ecossistema digital saudável é papel da família, da escola, da sociedade e do poder público.

Essa busca por equilíbrio também ecoa no campo da ética e da espiritualidade. A encíclica papal Magnifica Humanitas propõe uma reflexão profunda sobre o papel do ser humano diante das novas tecnologias. Para o teólogo leigo e professor da PUC Paraná, Cesar Kuzma, o documento não se posiciona contra a inovação, mas estabelece o bem comum e a dignidade humana como norteadores inegociáveis do progresso. "Dialogar com o nosso tempo não nos impede de manter o senso crítico. Não somos inimigos da tecnologia, desde que ela esteja verdadeiramente a serviço da vida, e não da desumanização das nossas rotinas." — Cesar Kuzma, teólogo e professor da PUC-PR.

A grande provocação que fica, seja pela lente da ciência de dados ou pela reflexão ética, é que a tecnologia é um meio, não o fim. Ela pode aproximar avós de netos que moram longe, facilitar o dia a dia e abrir portas para o conhecimento. No entanto, o verdadeiro lar das conexões profundas ainda reside no mundo offline.

Desconectar temporariamente, estabelecer momentos livres de aparelhos e resgatar o valor do diálogo espontâneo não significa rejeitar a modernidade. Significa, acima de tudo, escolher estar presente por inteiro na vida de quem mais importa.

Confira a reportagem na íntegra aqui!


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