Realizada anualmente durante a Quaresma, a Campanha da Fraternidade é um caminho de conversão, solidariedade e compromisso social. Em 2026, a campanha convida toda a Igreja no Brasil a refletir e agir a partir do tema “Fraternidade e Moradia”, e lema: "Ele veio morar entre nós" Jo 1,14 chamando atenção para um direito essencial e, ao mesmo tempo, ainda negado a milhões de famílias: viver com dignidade em um lar seguro, adequado e humano.
Em entrevista à Rede Imaculada de Comunicação, Dom Manoel Ferreira dos Santos Júnior, bispo de Registro (SP) e referencial para a Pastoral da Moradia e Favela fala sobre a motivação para o tema deste ano e sobre os textos bíblicos que fundamentam a campanha de 2026. Confira:
Dom Manoel, como é escolhido um tema para a Campanha da Fraternidade? Qual a motivação para preparar esta campanha de 2026 que fala sobre moradia?
Dois anos antes de acontecer é votada a campanha no Conselho Episcopal Pastoral Permanente, que é um conselho que reúne a presidência da CNBB e junto com ela os coordenadores de pastoral do Brasil todo, para que possam aprovar um tema para a CF. Para este tema fraternidade e moradia, foi feito um trabalho de preparação vendo a necessidade do povo. Então, apresentamos a esse conselho que 2 anos antes votou e aprovou. Então, com o tema Fraternidade e moradia nós vamos falar sobre a importância da moradia na vida das pessoas e o lema “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14) mostra, de maneira muito bonita, a encarnação do Senhor, o Senhor que vem morar, habitar no meio de nós, armar a sua tenda.
Dom Manoel, há pessoas que afirmam que a Campanha da Fraternidade atrapalha a Quaresma. Será que ela poderia ser realizada em outras épocas do ano ou tem um sentido ela acontecer com a Quaresma?
Poderia sim se fazer em outra época, mas a gente pensa que Quaresma é tempo de conversão. E a conversão se faz não só de maneira teórica e individual, mas nós somos chamados também a uma conversão social na nossa forma de ver o mundo, de ver as pessoas e se comprometer com aqueles que estão sofrendo. Isso também é conversão, mudar a nossa realidade, a nossa visão e o nosso coração diante do sofrimento das pessoas. Quando pensamos em uma campanha da fraternidade ligada à moradia digna, estamos sendo solidários com aqueles que não têm moradia digna, aqueles que moram em situação de rua, por exemplo. É um compromisso de fé porque queremos um mundo melhor. E a conversão é justamente isso. Jesus tinha compaixão daqueles que sofriam Ter compaixão é sofrer com aquele que está sofrendo. Então, quando pensamos na moradia digna nos aproximamos daqueles que não têm condição. Por isso, a campanha da fraternidade toma uma dimensão tão bonita. Ela é social, de conversão.
Quais são os objetivos da campanha, e qual é o grande objetivo da CF 2026?
O objetivo geral é promover, a partir da Boa Nova do Reino de Deus em espírito de conversão quaresmal, a moradia digna como prioridade e direito junto aos demais bens e serviços essenciais à toda população. Nós dizemos que a moradia é a porta de entrada para qualquer dignidade. Quem não tem moradia, não tem endereço, não chega, por exemplo, a comunicação, a carta, a internet, ou não chega água não chega luz. Então, pensar em moradia é fazer este caminho. E é essa a conversão que vamos fazendo dentro de nós. Diante desta realidade de sofrimento, a importância de nos colocarmos no lugar da pessoa que está sofrendo ou que está sem moradia. Todos têm direito, aliás, a Constituição Brasileira fala isso e esse é o objetivo específico: analisar a realidade da moradia precária no Brasil, ajudar as pessoas a entenderem esse sofrimento que segrega milhões de pessoas e, no nosso país, identificar omissões do poder público. É preciso repensar tudo isso e fortalecer a presença eclesial e o compromisso transformador junto aos mais pobres. A igreja precisa estar perto daqueles que sofrem. A igreja precisa estar perto daqueles que são os mais pobres, os mais fragilizados, em especial aqueles que não têm moradia ou que a sua moradia é muito precária.
E o que motivou a CNBB a assumir este tema da moradia?
A moradia é um local onde as famílias repõem as energias. Motivam as relações, celebram a vida e se integram à sociedade. A moradia é a porta de entrada de todos os direitos. Se a pessoa não tem moradia, não tem endereço e não tem direito ao emprego, à justiça, à educação, à saúde, e à qualidade de vida. Tudo isso vai ficando difícil. Então, diante disso, olhando realidades sociais, por exemplo, uma criança que não tem moradia, não consegue estudar. Não tem onde guardar os seus livros, não tem onde guardar as suas coisas. Ela é prejudicada de todas as maneiras. No Brasil, são seis milhões de famílias que necessitam hoje de uma moradia por estarem em habitação precária, em coabitação ou com aluguel excessivo. Nós temos, por exemplo, a realidade dos cortiços, onde muitas famílias moram numa mesma casa com um único banheiro. Eu trabalhei em cortiços no centro de São Paulo e conheci bem esta realidade. Outras 26 milhões de famílias moram em situação inadequada, área de risco, sem infraestrutura ou com infraestrutura insuficiente, segregação social longe de equipamentos públicos e sem a política pública básica, com forte influência do crime organizado, entre outros problemas que nós vemos nas grandes cidades. Essa situação tem chamado a atenção da igreja e também da nossa sociedade. Uma outra realidade são os despejos. O número de pessoas afetadas por despejo ou remoção forçada no Brasil aumentou 70% entre 2022 e 2024. Por que as pessoas moram na favela, na beira do Rio? É porque aquele território ainda não interessa para aqueles que têm o mercado imobiliário, mas, quando passar a interessas, eles vão lá e tiram esses moradores e os levam para outro canto mais periférico ainda, onde o mercado financeiro quer fazer. Então, a igreja tem como missão ajudar as pessoas a se conscientizarem.
Dom Manoel, alguns até dizem que essas pessoas são culpadas por morarem nas favelas e que muitos optam por morar na rua. Isso é verdade?
Para maioria desta população isso não é verdade. 70% das pessoas em situação de rua mantém atividade de trabalho regular, porém de baixa renda. Em março de 2025, 330 mil pessoas estavam em situação de rua no Brasil, segundo o Observatório Brasileiro de Políticas Públicas. Mas a gente vê que muitos que moram na rua também tem problema da doença da tuberculose e tantas outras que vão acontecendo. Por isso que a igreja católica pensa em uma Campanha da Fraternidade, nos ajudando a refletir e ao mesmo tempo nos ajudando a converter.
O senhor falou do lema que é, “Ele veio morar entre nós” Jo 1,14. No Natal, nós recebemos aqui na Rádio Imaculado um frei que falou assim: Jesus veio morar no meio de nós, mas logo que ele nasceu já teve problema com moradia. E na Bíblia a moradia é uma questão que está desde o antigo testamento, nos Salmos. E o texto base da campanha também aborda esses textos bíblicos?
Sim, a palavra de Deus é sempre muito rica, muito profunda. Tem alguns textos, por exemplo, de Miquéias capítulo 2,1-2, que vai dizer: “Ai daqueles que cobiçam campos e os roubam, cobiçam casas e as tomam, oprimem o homem e sua casa”. Em Jeremias encontramos: “Ai do que constrói sua casa sem justiça e seus aposentos sem direito, que faz seu próximo trabalhar de graça e não lhe paga o salário”, entre outros textos, mas o texto bíblico que nós vamos meditar bastante é: “A palavra se fez carne e armou a sua tenda entre nós”, Deus que veio morar no meio de nós, de maneira muito simples, nasceu numa periferia, sem um lugar para morar. Mas tem outros textos também que mostram um pouco a vida de Jesus. Em Lucas, 2,7, diz assim: “ela deu à luz a seu filho primogênito, envolveu em faixas e deitou numa manjedoura porque não havia lugar para eles no andar dos hóspedes”. Já adulto, Jesus um dia vai dizer: “as raposas têm suas tocas e os pássaros do céu os seus ninhos, mas o filho do homem não tem onde reclinar a cabeça” Lucas 9.
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