“Não é aquele que diz: ‘Senhor! Senhor!’ que entrará no Reino dos Céus, mas quem faz a vontade do meu Pai que está nos céus” (Mt 7,21). Nessa parábola, Jesus demonstra que há uma evidente separação entre falar e fazer.
Um pai, que tinha dois filhos, manda-os trabalharem em sua vinha. O primeiro respondeu-lhe prontamente que iria, mas não foi. Porém, o segundo, inicialmente, recusou-se a obedecer ao pai, mas depois reconsiderou sua decisão e atendeu à ordem paterna. No fim, Jesus pergunta: “Qual dos dois realizou a vontade do Pai?”, obtendo esta resposta unânime: “O segundo”.
Todos concordam que a vontade do Pai só pode ser realizada mediante a ação concreta. Não aceitam, porém, a aplicação da parábola feita por Jesus. Segundo tal aplicação, refere-se, de uma parte, ao comportamento das máximas autoridades judaicas e, de outra, ao comportamento dos publicanos e pecadores em relação à vontade de Deus anunciada por João Batista.
João Batista anunciou o que se deve fazer, qual o comportamento justo, conforme a vontade de Deus. Mas as autoridades judaicas, em geral, não lhe deram crédito, não o reconheceram como profeta de Deus (cf. 21,25). Portanto, correspondem ao primeiro filho, que responde com belas palavras, mas não cumpre efetivamente a vontade do pai.
A exortação de Jesus torna-se mais pungente quando contrapõe seus interlocutores aos publicanos e às prostitutas que ouviram o apelo de conversão de João Batista (cf. Lc 7,29-30). Pois, segundo os chefes judaicos, essas pessoas, pelo próprio estilo de vida, estavam excluídas do Reino de Deus. Jesus, ao contrário, vê nelas o segundo filho, que a princípio responde negativamente ao apelo paterno, mas depois reconsidera e obedece à sua vontade.
Obviamente, Jesus não aprova a conduta moral dos publicanos e das prostitutas. Ele elogia o modo como eles atenderam ao apelo de conversão feito por João Batista, reconhecendo, nessa atitude, o cumprimento da vontade de Deus, condição necessária para entrar no seu Reino.
Ninguém que tenha vivido mal deve desesperar-se. A primeira resposta não é decisiva se não se permanece nela, emendando-se mediante o agir correto. Por outro lado, os que se consideram bons, mas não agem de forma correspondente, deveriam sentir-se interpelados à conversão pelo exemplo daqueles que antes se comportavam erroneamente, mas mudaram de vida, retomando o bom caminho.
Jesus conta essa parábola às autoridades judaicas que lhe vêm pedir razão de sua autoridade (cf. Mt 21,23). Ele lhes responde com outra pergunta sobre o batismo de João, se João era ou não um enviado de Deus. Para não se comprometerem, responderam evasivamente: “Não sabemos” (cf. Mt 21,27). Jesus, porém, responde abertamente o que pensa do Batista: “João veio a vós no caminho da justiça e não crestes nele. Os publicanos e as prostitutas creram nele. Vós, porém, vendo isso, nem sequer reconsiderastes para crer nele” (Mt 21,32).
Com essa passagem, Jesus chama-nos a atenção para a realização da vontade de Deus. Urge buscá-la atentamente, acolhê-la prontamente e reconhecer os mensageiros de Deus, que a comunicam. Trata-se de uma séria decisão, da qual não se pode evadir e fingir não saber. Recusar-se a decidir é decidir-se contra a vontade de Deus. Uma primeira resposta errada não é uma decisão definitiva; pode ser retificada mediante a conversão e um decidido comportamento segundo a vontade do Pai.
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