São Maximiliano Kolbe

Ação e contemplação

É importante entender que é um sentimento doloroso e difícil de reconhecer porque fere a nossa própria imagem, pois significa assumir que quero algo que não tenho e que outra pessoa faz melhor

Escrito por Espiritualidade

14 JAN 2023 - 00H00

Frei Raffaele di Muro
Franciscano menor conventual Diretor da Pontifícia Universidade São Boaventura, em Roma

Durante os sete anos de formação em Roma, São Maximiliano viveu um intenso caminho espiritual. Para ele, formar-se na fé era muito importante. Mais do que cumprir horas de estudo, para Kolbe a fé era alcançar verdades reveladas pela força do intelecto e também por meio da graça. Dessa forma, a realidade da fé só era compreensível com a luz da graça de Deus. Kolbe tinha uma inteligência profunda, mas sabia que isso não bastava, por isso se confiava à graça de Deus, a uma intervenção divina para compreender as realidades mais elevadas. Sobretudo a oração é importante para tornar sempre mais profunda a própria fé. “A fé se nutre de joelhos”, dizia Kolbe que também afirmou que poderíamos escrever e falar da Imaculada a todo o mundo, mas a compreensão do que é a Imaculada só seria possível de joelhos com o auxílio do Espírito Santo.

Estudo

Para Kolbe a fé é possuir os valores da fé cristã e transmitir aos outros. Fé não é somente uma teoria, mas é algo visível, é concreto. Um aspecto que gostaria de ressaltar é que São Maximiliano era muito atento ao estudo da Sagrada Escritura, lia muito, estudava bastante, não parava nos primeiros obstáculos. Sobre a Imaculada ele leu muito, estudou tudo o que havia de possível na sua época, aprofundou o ensinamento da Igreja sobre a Imaculada. Ele exercitava muito o seu intelecto. Não tinha uma fé pequena, nem superficial, mas nutria a fé com a oração e o estudo, e, assim, nutria a fé das pessoas com profunda formação por meio da revista Cavaleiro da Imaculada. Outro aspecto interessante é que não temos muitos santos canonizados que tenham sido professores e teólogos. São Maximiliano é pouco recordado como professor, mas ele se doutorou em teologia e nela encontrou o mundo para sua missão. Foi professor na Polônia, logo que foi ordenado sacerdote; depois, no Japão, conseguiu entrar naquela realidade nova como professor de teologia; ao retornar da missão foi professor em Cracóvia, na Polônia.

No Japão percebi como ele pôde transmitir sua fé por meio dos raciocínios. Compreendeu que havia muitas pessoas que precisavam de reflexão, não só de oração. As realidades da redenção, o mistério da cruz, da salvação, a pessoa de Maria, tudo isso era importante que fosse refletido e compreendido pelas pessoas que não eram católicas no Japão. São Maximiliano Kolbe fundou a Milícia da Imaculada no contexto da Primeira Guerra Mundial. O que se seguiu foi um período de desagregação e falta de referenciais.

Por isso Kolbe insistiu no apostolado pelos meios de comunicação. Kolbe fazia catequese com a revista Cavaleiro da Imaculada, nutria a fé na Polônia que estava fragmentada e com dificuldades de referências na fé. No Japão, Kolbe oferecia o alimento espiritual por meio das revistas, eram pequenas catequeses, mas esclarecedoras para aquelas pessoas que tinham outra religião e outras referências. Até hoje na Polônia, Itália e Japão, são publicadas as revistas fundadas por Kolbe. Kolbe sempre falava das pessoas que ainda não conheciam Maria, e o trabalho editorial era voltado a torná-la conhecida. Não era somente questão de enviar material religioso, mas produzir material com conteúdo claro e eficaz para a fé.

São Maximiliano, em seus escritos, tem um amor especial para aquele que se dizem ateus. Para ele ateu não existe porque sempre se acredita em algo, não é possível ao homem não crer em nada. São Maximiliano tem uma atenção especial para quem não conhece a fé, e dirige suas revistas também a eles. Nos primeiros números da revista Cavaleiro da Imaculada, Kolbe explica que não é somente para os cristãos, mas, sobretudo, para os não cristãos, os ateus e também os inimigos da Igreja. Aqui vemos São Maximiliano aberto às pessoas. No Japão aprendeu o japonês mesmo tendo bom tradutor para a revista porque queria conversar com as pessoas. Kolbe nos convida a uma fé madura, baseada em uma formação séria e forte. Para São Maximiliano a fé serve para ser doada, transmitida.

Oração

Há uma intensa atividade espiritual que precede o trabalho. A oração e o sacrifício são a alma de todo apostolado. Kolbe compreende que nutrir a fé é uma fatiga, mas é importante fazê-lo para o crescimento pessoal e do outro. A fé se amadurece pela oração, pelos momentos de adoração, de retiro, de intimidade com o Senhor. Esse é o complemento ao estudo, à preparação para o apostolado. Sem a luz de Deus, sem a oração que precede a preparação, não há verdadeiro serviço a Deus. Um sinal importante da dimensão contemplativa de Kolbe é a gruta de Nossa Senhora de Lourdes que ele reproduziu na cidade da Imaculada na Polônia e no Japão. Ele queria reproduzir o espírito de oração das aparições de Lourdes.

Na Polônia fundou a Cidade da Imaculada, uma estrutura organizada que exerce o serviço ao apostolado; já no Japão, ele fundou o Jardim da Imaculada. Fiquei muito feliz em conhecer esse lugar que tem também a gráfica para impressão das revistas, mas é especialmente dedicado à contemplação, recebendo visita de pessoas para orar nesse jardim especial. Assim vemos que a ação e a contemplação, para Kolbe, eram realidades perenes da Milícia da Imaculada, que sobressaíam de maneiras diferentes de acordo com cada realidade. Quero chamar a atenção para outra coisa muito importante: Kolbe compreendeu o lugar de sua missão e a mentalidade dos japoneses e, por isso, não reproduziu de forma idêntica a experiência polonesa de evangelização, mas deu a possibilidade de desenvolver os pontos mais relevantes para a cultura japonesa. Para nós resta o desafio de compreender o lugar em que a Milícia da Imaculada se insere. Devemos compreender que o ideal da Milícia da Imaculada permanece, mas o mundo muda. Estamos, por exemplo, nas redes sociais e devemos compreender, a partir da oração e com inteligência, essa dinâmica relacional para exercer o serviço evangelizador.

Fonte: O Mílite

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