O cidadão comum já percebe que o tempo está diferente, que o clima mudou muito. E isso reflete na conta de luz e no preço dos alimentos, além de causar transtornos e desastres. Não precisa ser um cientista para ver as mudanças climáticas, mas precisamos da ciência para entender suas causas e consequências. Para entender esse mistério que mexe com o prato de comida e a segurança do teto do brasileiro, fomos até São José dos Campos, no interior paulista, onde homens e mulheres passam as 24 horas do dia "espiando" o céu e o chão.
Lá funciona o Cemaden — Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais. É uma espécie de sentinela avançada que tem a missão de desenvolver e disseminar conhecimentos científico-tecnológicos em ciência dos desastres e realizar o monitoramento e a emissão de alertas para subsidiar a gestão de riscos e impactos de desastres deflagrados por extremos hidrometeorológicos no país. A Rede Imaculada de Comunicação visitou a organização a convite da Iniciativa Inter-religiosa pelas Florestas tropicais em maio deste ano. Enquanto o Brasil dorme, equipes se revezam em quatro turnos diante de telões coloridos que parecem coisa de cinema. Mas o que eles vigiam é a vida. "Nossa sala de situação funciona 24 horas por dia. Em cada turno, temos um especialista em extremos hidrológicos, um em geociências, um em meteorologia e um focado em vulnerabilidade social", explica Marcelo Seluchi, meteorologista do Cemaden.
Equipe da Rede Imaculada participou de uma imersão científica no Cemaden, em São José dos Campos
O que é um sistema climático?
Para entender como o tempo se arma e como a vida se sustenta, a gente tem que olhar para a natureza não como um amontoado de coisas isoladas, mas como uma engrenagem onde cada peça, por menor que seja, tem o seu serviço.
Tudo começa lá no alto, com o astro-rei, o Sol que fornece o calor, a luz e a energia para a planta brotar e para a gente ter um clima que não seja um gelo só. Sem o Sol, o motor da vida nem daria a partida.
Depois, temos a água, que é o sangue da terra. Ela está em todo lugar: no azul dos oceanos, no branco das geleiras, correndo nos rios ou escondida no subsolo. Mas veja que curiosidade: o mundo parece ter água de sobra, mas de cada cem litros que o planeta tem, noventa e sete são de água salgada, do mar. Dos três litros que sobram de água doce, a maior parte está guardada no gelo ou lá no fundo da terra. Para a gente beber mesmo, só sobra um tiquinho, um por cento de tudo. E esse um por cento é o que move a vida.
Aí entra a vegetação. A planta não está ali só para dar sombra ou fruto; ela trabalha duro. A floresta transpira, joga umidade no ar — é o suor das folhas virando nuvem. O solo, por sua vez, é como uma esponja que segura essa água e mantém o equilíbrio
E tem o ar, a nossa atmosfera. Muita gente acha que o ar é uma coisa só, mas é uma mistura de gases, uma receita bem temperada. Tem oxigênio para a gente respirar, tem nitrogênio, e tem o vapor d'água, que é a água que a gente não vê, mas que está ali, pairando.
E veja que coisa sábia: a Terra já saiu de fábrica com um agasalho, o tal do efeito estufa. Tem uns gases na atmosfera que funcionam como uma tampa de panela ou um cobertor de lã. O Sol bate no chão, o chão esquenta e esse calor tenta subir de volta para o espaço, mas o cobertor segura ele aqui perto de nós.
Nesse sistema, interage também o ser humano que possui a capacidade de romper a harmonia. “Nós começamos a alterar esse clima através da emissão de gases, que estão aumentando o efeito estufa que já existia, nós estamos aumentando, e estamos mudando também a cobertura do solo. Estamos substituindo floresta por áreas de pastagem, por cidades, e isso tem um impacto nesse equilíbrio da evaporação”, afirma Seluchi.
O segredo da "caixa d’água"
O meteorologista Marcelo Seluchi, aponta para o que chama de "caixa d’água" e o diagnóstico é de dar nó na garganta: "A estação chuvosa está encurtando", diz, com a autoridade de quem analisou dados desde 1979. Naquele ano, a chuva visitou a terra por 165 dias. De lá para cá, o gráfico é uma ladeira. "Às vezes é porque começam mais tarde, às vezes é porque encerram mais cedo, às vezes as duas coisas ao mesmo tempo", explica ele. O resultado? O sistema está sendo pressionado até o limite. É como um reservatório que recebe menos do que precisa e tem que dar conta de mais gente. É como se a caixa d’água estivesse secando.
Carlos Vicente atua na Iniciativa Inter-religiosa pelas Florestas Tropicais
“Eu posso ter uma caixa d'água enorme na minha casa. Preciso ter água da rua para conseguir enxergar. Então, por um lado, a atmosfera tem mais capacidade, sim, de estocar. Mas eu preciso de um mecanismo que me forneça. E um desses mecanismos fundamentais, que é a evaporação do solo, que eu estou destruindo, porque eu estou tirando uma floresta e substituindo por uma área de pastagem, sendo que a área de pastagem evapora 4 ou 5 vezes menos que uma área de floresta. Então, eu estou tirando a fonte de umidade”, explica o especialista.
Sem a floresta para segurar a umidade, o ciclo se quebra. "Quando eu corto uma árvore, não apenas deixo de capturar o gás carbônico, mas estou deixando de lançar umidade no ar", alerta o pesquisador. O tronco da árvore é puro carbono guardado. Quando a serra passa, o carbono sobe e o calor aumenta. É o efeito estufa, que Seluchi define com clareza: "É uma característica benéfica que mantém a Terra em temperatura própria para a vida; sem esses gases, seria um gelo só. Mas nós exageramos na dose, engrossamos muito o cobertor".
Além disso, os oceanos estão como uma piscina no fim de tarde: retendo um calor absurdo. Em fevereiro de 2023, o litoral norte de São Paulo sentiu o peso disso. Em São Sebastião, caíram quase 700 milímetros de chuva em um único dia. Em Bertioga, o registro beirou os 900 milímetros. "Imagine uma tonelada de água em cada metro quadrado", descreve o especialista. É água demais para qualquer chão aguentar, especialmente se houver gente morando onde a terra é frágil e a encosta é íngreme.
A previsão e o alerta
Dentro do Cemaden, o trabalho não é apenas dizer se vai dar sol ou chuva. É algo mais profundo. Seluchi faz uma distinção fundamental para a sobrevivência: "Fazer uma previsão de alerta não é fazer previsão de chuva. É previsão de probabilidade de um desastre".
A precisão desse "grito de alerta" é uma escada técnica. Quando o Centro emite um alerta de nível "Atenção", há cerca de 30% de chance de o evento se confirmar — é o aviso para o pessoal da Defesa Civil ficar de prontidão. Mas quando o alerta sobe para o nível "Alto", quando o fenômeno é provado tecnicamente, a precisão salta para 95%. É a hora de tirar o povo de casa, de apitar a sirene, de salvar a pele.
A ciência brasileira aprendeu que o clima não é igual para todos. "Não é apenas a chuva, é a condição social naquele momento", ensina Seluchi. Uma seca de seis meses é um transtorno para quem tem água encanada, mas é uma sentença de fome para uma comunidade indígena ou para quem depende da pequena agricultura de subsistência.
O caminho da prevenção
Se o clima está "nervoso", a prevenção é o único remédio. O Cemaden agora expande seus olhos: a meta é chegar a 2.000 municípios monitorados e espalhar 7.000 pluviômetros automáticos pelo país. Eles ajudam a decidir desde a cor da bandeira na conta de luz até a distribuição do "bolsa estiagem".
Carlos Vicente, que atua na Iniciativa Inter-religiosa pelas Florestas Tropicais, reforça esse elo entre a ciência e o coração. Ele defende que a informação científica precisa chegar às comunidades de forma que elas possam proteger suas famílias e sua "casa comum", como diz o Papa Francisco. "A arte e a espiritualidade conectam com as emoções", diz Carlos, lembrando que proteger a floresta é proteger a vida de todos nós.
É importante olhar para o futuro com as lentes das origens, conforme recorda Carlos: "Quando Deus cria o mundo, ele cria a gente por último, porque ele organizou tudo antes, ele preparou a água, ele criou os animais, ele criou as plantas, criou todo mundo, e depois ele cria o ser humano pra viver nesse lugar. E nós somos os que dependemos, nós dependemos do ar pra viver, dependemos da água, dependemos das plantas pra produzir os alimentos, dependemos dos animais, dependemos das abelhas pra polinizar. Então o nosso papel, em primeiro lugar, é entender que nós temos um mandato, um mandato cultural que está lá no Gênesis, no capítulo 2, no versículo 15, que fala que Deus colocou o ser humano no jardim pra cultivar e guardar”.
De fato, a ideia básica de cultivar é desenvolver, usar a inteligência, a capacidade criativa pra criar, pra desenvolver, pra progredir. E no atual contexto, além de progredir, precisamos cuidar da vida: “Eu acho que qualquer religioso, de qualquer tradição, ele tem essa missão de, em obediência a Deus, cuidar daquilo que ele criou, mas em inteligência, utilização da racionalidade, entender que se eu não cuidar do ambiente que eu moro, o ambiente que eu moro vai ficar poluído. A comida que eu como vai ficar de má qualidade, o ar que eu respiro vai ser poluído, e isso produz doença, isso produz sofrimento, isso produz morte. Defender o ambiente é defender a vida”, completa Carlos Vicente.
A lição que fica, entre os sensores eletrônicos e o cheiro de café das trocas de turno em São José dos Campos, é que o desastre não acontece apenas no dia do temporal. "Um deslizamento de terra depende de três ou quatro dias de chuva acumulada", revela Seluchi que informa que uma inundação na Amazônia pode ser fruto de algo que aconteceu seis meses atrás. Precisamos compreender os sinais e olhar para o clima com mais atenção.
A terra é generosa, mas tem seus limites. E nós estamos esticando essa corda além do juízo. O relógio da Terra pode ter perdido o compasso, mas enquanto houver gente vigiando as nuvens e protegendo as matas, ainda há tempo de acertar os ponteiros.
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