No Brasil, registram-se anualmente cerca de 28 mil óbitos fetais e aproximadamente 8 óbitos neonatais para cada 100 mil nascidos vivos. Diante desse cenário de saúde pública, a recente sanção da Lei Federal nº 15.139, que instituiu a Política Nacional de Humanização do Luto Materno e Parental, joga luz sobre a urgência de protocolos de acolhimento para as famílias. O impacto dessa nova legislação e os desafios do chamado luto perinatal, que compreende as perdas ocorridas a partir da 22ª semana de gestação até os 29 dias de vida do bebê, foram o tema do último episódio da série de reportagens deste mês no Imaculada Notícias.
Apesar das estatísticas expressivas, o tema permanece envolto em um profundo tabu social. Por acontecer em fases tão iniciais da vida, a perda gestacional e neonatal tende a ser desconsiderada pelo entorno social dos pais. Esse fenômeno gera o que os especialistas chamam de luto não reconhecido, uma condição em que os indivíduos enlutados não se sentem socialmente autorizados sequer a expressar a sua tristeza, dificultando o processo natural de elaboração da perda.
Em muitos casos, o sofrimento começa antes mesmo do parto. É o luto antecipatório, que surge no exato momento em que a gestante recebe o diagnóstico de uma malformação fetal incompatível com a vida na sala de ultrassom, ou quando acompanha o recém-nascido internado em cuidados paliativos na UTI neonatal. Para a mãe, a perda destrói de imediato as expectativas de futuro e o planejamento familiar, abrindo espaço para um processo solitário de culpa.
Para o pai, o cenário consegue ser ainda mais silenciado. A expectativa social exige historicamente que o homem assuma a postura de fortaleza burocrática da família: é ele quem lida com os papéis do óbito, comunica os parentes e ampara a companheira. No entanto, raramente há um espaço de escuta para a dor masculina, fazendo com que muitos pais sofram em isolamento. Esse silenciamento também afeta os irmãos do bebê que partiu; especialistas alertam que tentar poupar as crianças da realidade da morte pode isolá-las, já que vivenciar o luto compartilhado em família ajuda os filhos a compreenderem e expressarem suas próprias emoções.
A aplicação prática da Lei Federal nº 15.139 estabelece que o acolhimento a essas famílias deve ser um continuum de cuidados, integrando desde o momento da má notícia nas maternidades até o acompanhamento pós-alta na Atenção Primária à Saúde (APS). Ambas as pontas da rede pública de saúde precisam estar tecnicamente preparadas.
A médica pediatra, neonatologista e paliativista Doutora Larissa Madruga Monteiro reforça que o processo de luto é estritamente único para cada família, exigindo que o atendimento médico afaste fórmulas prontas. Segundo a especialista, o suporte mais poderoso na linha de frente não está em frases de consolo automáticas, mas sim na presença genuína e na escuta sem julgamentos por parte da equipe multiprofissional.
A dor da perda perinatal não desaparece com o tempo, mas se transforma. Com esta discussão necessária, o Imaculada Notícias encerra o ciclo de reportagens especiais deste mês, agradecendo a todas as famílias e profissionais que romperam o silêncio para compartilhar suas histórias. A ciência e a psicologia reforçam que a melhor estratégia para entrar em contato com o sofrimento é permitindo que ele seja falado, sentido e vivenciado no ritmo de cada um. Somente estendendo pontes de afeto e cumprindo as diretrizes legais será possível garantir que a dor mais profunda encontre o caminho para se transformar em uma saudade acolhida, respeitada e protegida por direito.
Ouça a reportagem na íntegra aqui!
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