A vida de quem enfrenta uma dependência é feita de pequenas e grandes batalhas diárias. Aos oito anos de idade, Dona Maria Nazaré acendeu o primeiro cigarro, sem saber que carregaria esse hábito por décadas e que, hoje, travaria uma luta constante contra o próprio corpo para conseguir parar. Do outro lado da mesma moeda está Adilson. Há oito anos sem consumir drogas, ele resume sua rotina em uma vigilância atenta e contínua: é um dia de cada vez.
Historicamente encarado pela sociedade como uma falha moral ou falta de determinação, o vício esconde uma realidade muito mais complexa. A medicina moderna já comprovou que o consumo de substâncias percorre caminhos bem definidos. Tudo pode começar com o uso casual, evoluir para o abuso quando os prejuízos à rotina e à saúde aparecem, e culminar na dependência — o estágio em que o organismo perde a capacidade de funcionar sem a substância.
Seja no álcool socialmente aceito, nos cigarros tradicionais, nos modernos e ilusórios vapes ou nas drogas ilícitas, a engrenagem no cérebro é parecida. Como explica o pneumologista e infectologista Dr. Fernando Santella, o uso contínuo traz danos severos e silenciosos a longo prazo, afetando órgãos vitais e a capacidade respiratória. O grande obstáculo é que a substância sequestra o sistema de recompensa do cérebro, exigindo doses cada vez maiores e transformando a interrupção em um processo fisicamente doloroso.
Ninguém desenvolve uma dependência no vazio. Fatores genéticos, traumas, ansiedade e o meio social influenciam diretamente essa jornada, afetando não apenas o indivíduo, mas toda a estrutura familiar. Por isso, enxergar a dependência química como uma condição de saúde pública é o primeiro passo para afastar o estigma e abrir portas para o tratamento.
A recuperação exige acompanhamento médico, suporte psicológico e, acima de tudo, uma rede de apoio afetuosa. O atendimento gratuito e especializado está disponível em toda a rede pública pelo SUS, por meio das Unidades Básicas de Saúde (UBS) e dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), além do suporte comunitário oferecido por grupos como Alcoólicos Anônimos (AA) e Narcóticos Anônimos (NA). Para orientações anônimas, o serviço governamental Ligue 132 funciona 24 horas.
A história de Adilson e a persistência de Dona Maria Nazaré nos lembram que pedir ajuda não é sinal de fraqueza, mas o ato mais corajoso de quem escolhe recomeçar.
Esta reportagem faz parte de uma série especial sobre vícios e comportamentos. Na próxima edição, abordaremos como os jogos eletrônicos, as apostas online e as redes sociais acionam esses mesmos gatilhos cerebrais.
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