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Após 39 anos, restos mortais de Vicente Cañas são reunidos e sepultados na terra onde viveu e foi assassinado

Conhecido como Kiwxi, missionário jesuíta que defendeu o povo Enawenê Nawê tem crânio devolvido pela Justiça e enterrado junto ao corpo em cerimônia histórica na Terra Indígena em Juína (MT)

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Escrito por Núria Coelho

23 ABR 2026 - 06H00 (Atualizada em 23 ABR 2026 - 10H23)

Acervo MI

Quase quatro décadas após um dos crimes mais marcantes na defesa dos povos indígenas no Brasil, os restos mortais do padre jesuíta Vicente Cañas, conhecido como Kiwxi, foram finalmente reunidos e sepultados na terra onde ele viveu, lutou e foi assassinado. O missionário espanhol, morto em 1987 aos 47 anos, dedicou mais de dez anos de sua vida ao povo Enawenê Nawê, na região de Juína, no noroeste de Mato Grosso.

A calota craniana, que permanecia como prova em uma ação penal, foi devolvida pela Justiça Federal e enterrada junto ao restante do corpo, encerrando um ciclo de dor e espera que atravessou gerações. A cerimônia de sepultamento aconteceu entre os dias 6 e 9 de abril de 2026, na própria Terra Indígena, reunindo representantes de diversas instituições e comunidades.

Participaram da missão membros do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), da Operação Amazônia Nativa (Opan), da Companhia de Jesus, da Diocese de Juína e do Instituto Federal de Mato Grosso – Campus Juína, além de familiares do missionário vindos da Espanha e integrantes do povo Enawenê Nawê.

Vicente Cañas é lembrado não apenas por sua atuação missionária, mas pela profunda identificação com os povos indígenas. Ele foi o único missionário branco a ser batizado pelo povo Myky, que lhe deu o nome de Kiwxi, que significa “aquele que se doa por inteiro” — um reconhecimento de sua entrega total à causa indígena.

Seu assassinato ocorreu em meio a conflitos fundiários e à defesa do território indígena, tornando-se símbolo da luta pelos direitos dos povos originários e da preservação da Amazônia. O sepultamento definitivo representa não apenas um gesto de justiça, mas também de memória, reconciliação e respeito à história de quem deu a vida pela defesa dos mais vulneráveis.

A jornalista Angelica Lima conversou com o bispo de Juína, (MT), Dom Neri Tondello. Acompanhe a entrevista!!





Sobre o missionário:

O missionário jesuíta Vicente Cañas, conhecido entre os povos indígenas como Kiwxi, nasceu na Espanha em 1941 e ingressou ainda jovem na Companhia de Jesus. Movido pelo ideal missionário, veio para o Brasil na década de 1960, em um período marcado por intensas transformações sociais e também por conflitos envolvendo a ocupação da Amazônia.

Na década de 1970, passou a atuar na região noroeste do estado de Mato Grosso, especialmente junto ao povo Enawenê Nawê. Com o tempo, adotou um estilo de vida profundamente integrado à cultura indígena, optando por viver de forma simples, isolada e em total respeito às tradições locais. Diferente de muitos missionários da época, Vicente Cañas não tinha como objetivo impor costumes externos, mas sim proteger a vida, a cultura e o território dos povos originários.

Sua relação com os indígenas foi tão intensa que ele acabou sendo acolhido também pelo povo Myky, que o batizou com o nome Kiwxi, que significa “aquele que se doa por inteiro”. Esse gesto simboliza o nível de confiança e identificação que ele conquistou ao longo dos anos.

Durante sua missão, Vicente Cañas tornou-se uma figura central na defesa dos territórios indígenas diante do avanço de fazendeiros, madeireiros e projetos de ocupação da região. Ele atuou em parceria com o Conselho Indigenista Missionário, organismo ligado à Igreja Católica que trabalha na promoção e defesa dos direitos dos povos indígenas no Brasil.

Seu compromisso com essa causa, no entanto, o colocou em situação de risco. Em abril de 1987, Vicente Cañas foi brutalmente assassinado em meio a conflitos fundiários, tornando-se mártir da luta pelos direitos indígenas. Seu corpo foi encontrado meses depois, já em avançado estado de decomposição.

Ao longo das décadas seguintes, sua memória permaneceu viva entre os povos indígenas e nas pastorais sociais da Igreja, sendo lembrado como símbolo de entrega, coragem e solidariedade. O recente sepultamento completo de seus restos mortais, após a devolução de sua calota craniana pela Justiça, reforça esse legado e resgata a história de um missionário que fez da própria vida uma causa em defesa dos mais vulneráveis.

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Por Núria Coelho, em Rede Imaculada

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