Entrevista

“Ele veio morar entre nós”

Campanha da Fraternidade 2026 busca endereçar um dos maiores e mais complexos desafios atuais da sociedade brasileira: a garantia do direito à moradia digna

Escrito por Angelica Lima

18 FEV 2026 - 11H35 (Atualizada em 18 FEV 2026 - 11H39)

Com o tema Fraternidade e Moradia e o lema bíblico "Ele veio morar entre nós" (Jo 1,14), a Campanha da Fraternidade 2026 busca despertar a consciência sobre o direito à moradia digna como expressão concreta da fé cristã. O assessor do Setor de Campanhas da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Padre Jean Poul Hansen conversou com o jornalista da Rede Imaculada de Comunicação Paulo Teixeira sobre esta temática. Acompanhe.

Padre Jean o que quer destacar a Campanha da Fraternidade com este tema, fraternidade e moradia?

A Campanha da fraternidade quer sensibilizar-nos para a necessidade de promover a moradia digna para todos os filhos e filhas de Deus, visto que este é um elemento necessário para o desenvolvimento integral do ser humano e para a conservação da sua dignidade de filho e filha de Deus. O lema “Ele veio morar entre nós, é como Jesus se relaciona com quem não tem teto. Esse tema é muito atual e os bispos escolheram esta frase do evangelho de São João, capítulo primeiro, versículo 14 porque é a frase mais forte e eloquente do mistério da encarnação. Quando São João afirma: “Ele veio morar entre nós” e “Ele veio habitar entre nós”, “Ele edificou entre nós a sua tenda”, São João está dizendo que o verbo se encarnou, que ele assumiu a nossa vida, as vicissitudes da nossa existência e da nossa história. Jesus experimentou as vicissitudes da moradia. São Lucas anota no seu evangelho, capítulo 2, versículo 7, que “Ele nasceu na estrebaria porque não havia lugar para Ele na hospedaria”, ou seja, Jesus nasceu sem teto. Jesus nasceu sem ter um lugar digno para o seu nascimento. Depois, Jesus fez a experiência humana de viver numa casa, num lar, numa família, mas no seu Ministério público, Jesus opta por outra vez ser sem teto.

O senhor nos falava, padre, que Jesus optou por não ter casa em momentos de missão, mas essa é uma realidade também em nosso país? Alguns brasileiros também optam por não ter casa?

Infelizmente não! Não é uma opção. Muitos brasileiros são levados a essa situação de miséria. Nós temos hoje no Brasil um déficit de mais de seiscentas mil moradias. Não faltam no Brasil, hoje mais de seiscentas mil moradias, nós temos mais de seiscentas mil famílias que não têm a casa própria. Talvez estas famílias estejam nos ouvindo agora, pessoas que constituíram uma nova família ou que já há muito tempo têm a sua família e ainda não conseguiram construir ou adquirir a sua moradia. Mas não é só isso. São mais de 260 mil famílias vivendo em moradias inadequadas.

O que torna uma moradia inadequada?

Há uma convenção da ONU da década de 90, que foi celebrada aqui no Brasil, que estabelece uma dezena de elementos que tornam uma moradia inadequada. O primeiro elemento é a Posse da própria moradia. Se a pessoa não tem uma plena posse, ou seja, a escritura e o registro, onde está a sua casa? Essa casa não é segura, porque a qualquer momento essa pessoa pode ser expulsa da sua terra. O material com que essa casa edificada. Se ela é edificada com materiais que não são seguros, como papelão, lona, madeirite ou coisa assim, essa casa não é adequada. Um outro elemento é o tamanho da casa em relação ao tamanho da família. Uma casa que tem 15 pessoas, mas tem apenas um quarto, ou tem apenas um cômodo, não é uma casa adequada. E assim, muitos outros elementos como saneamento básico, acessibilidade, conectividade e tantos outros necessários para que a casa seja adequada.

Pe. Jean, a moradia inadequada fere a dignidade da pessoa humana?

Com certeza! Viver numa barraca de lona não é a vida que Deus desejou para os seus filhos e filhas. Viver numa casa sem saneamento básico, numa favela onde você convive com o esgoto a céu aberto, não é a vida plena que Deus desejou para os seus filhos e filhas. Viver amontoado em 15 pessoas, num único cômodo de 3:3 metros, não é a vida que Deus desejou para os seus filhos e filhas.

Moradia é direito?

Sem dúvida alguma! Está previsto no artigo sexto da Constituição federal: todo cidadão brasileiro tem direito à moradia digna, não qualquer moradia, moradia digna! E eu quero concluir dizendo aqui na rede Imaculada aquilo que eu ouvia esta semana de Dom Paulo Jackson, o arcebispo de Olinda e Recife e eu resumo da seguinte forma: Todos nós conhecemos a parábola do bom samaritano, não é verdade? Esta parábola tem uma questão fundamental. Quem é o meu próximo? Essa é a pergunta que a parábola tenta responder. A Campanha da fraternidade tem a ver com o bom samaritano, tem a ver com essa pergunta, quem é o meu irmão? Quem é a minha irmã? Infelizmente, algumas pessoas, grupos na nossa igreja hoje escolhem passar pelo outro lado do caminho em nome daquilo que julgam ser mais religioso, mais importante na prática da religião, enquanto a campanha da fraternidade, como o bom samaritano, escolhe passar pelo lado dos que sofrem, pelo lado do sofrimento humano, buscando resgatar aqueles que padecem hoje o seu calvário na questão da moradia. Não deixe passar a Campanha da Fraternidade, não passe pelo outro lado do caminho, vivendo uma Quaresma intimista. A penitência da Quaresma não deve ser apenas individual e interior, mas deve ser comunitária e social, por isso campanha da fraternidade. Abrace essa causa, abrace essa ideia e vamos juntos nos converter pessoal, comunitária e socialmente.

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Por Angelica Lima, em Entrevista

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