Por Frei Aloísio Oliveira Em Formação Atualizada em 17 FEV 2021 - 16H14

Páscoa de Jesus, nossa Luz

A Páscoa de Jesus, como morte e ressurreição dele, não foi imediatamente compreendida por Seus seguidores. O trecho de hoje (Jo 20,1-9) como, aos poucos, eles vão se despertando para a fé na ressurreição




A Páscoa foi uma experiência singular para o povo judeu. Ela é o miolo da espiritualidade judaica. Os Salmos são recheados de expressões pascais, fazendo ecoar aquele acontecimento extraordinário em que o Senhor libertou o Seu povo com mão forte e braço estendido. É um marco fundamental porque Israel experimenta a libertação de um poder muito mais forte do qual jamais poderia ter-se livrado pelas próprias forças. A Páscoa é, portanto, a experiência da graça libertadora de Deus, a qual constitui Israel como povo de Deus e o torna capaz de atravessar o deserto até chegar à Terra Prometida.

A Páscoa é a experiência da graça libertadora de Deus, a qual constitui Israel como povo de Deus e o torna capaz de atravessar o deserto até chegar à Terra Prometida

Por isso, cada ano o povo judeu celebrava a Páscoa para refundamentar no coração de cada fiel que aquela intervenção libertadora de Deus foi decisiva para todos e não só para aquele grupinho que atravessou o Mar Vermelho. A convicção era essa: “Se Deus não tivesse libertado nossos antepassados na noite do Êxodo, estaríamos ainda escravos no Egito e não libertos na Terra que o Senhor nos concedeu. Portanto, cada um de nós foi pessoalmente libertado naquela noite memorável”.

A celebração da Páscoa, como memorial da libertação da escravidão do Egito, previa anualmente o rito da imolação do cordeiro, um cordeiro por família, segundo a prescrição de Moisés. Na Sua paixão e morte, Jesus revela-se como o Cordeiro de Deus “imolado” na cruz para tirar os pecados do mundo. Foi morto precisamente na hora em que era costume imolar os cordeiros no Templo de Jerusalém. O sentido deste seu sacrifício, Jesus mesmo o revelou durante a Última Ceia, ao tomar o pão e o vinho – alimentos rituais da refeição na Páscoa hebraica –, dizendo: “Isto é o meu corpo”, “Isto é o meu sangue”. Podemos, assim, afirmar com certeza que Jesus levou a cumprimento a tradição da antiga Páscoa e transformou-a na “Sua” Páscoa. Mas, o sentido da Páscoa como morte e ressurreição de Jesus não foi imediatamente compreendido por Seus seguidores. O trecho do Evangelho da liturgia de hoje (Jo 20,1-9), por exemplo, apresenta os discípulos numa caminhada pela qual, aos poucos, vão se despertando para a fé na ressurreição. Vejamos!

- Quando ainda estava escuro (v. 1). Os discípulos de Jesus ainda estavam na escuridão da morte (cf. Lc 1,79) porque a fé deles ainda não se despertara para o Dia da ressurreição (cf. v. 9). Sair da “noite” da falta de fé e despertar-se para a aurora da ressurreição é um caminho pessoal lento e difícil. É necessário “ir atrás” do Senhor, à Sua procura mesmo às apalpadelas, em meio à escuridão (cf. v. 1), pôr-se a caminho e correr (cf. v. 4). Com efeito, a aurora da ressurreição vai surgindo lentamente das entranhas da noite. Mesmo no escuro, Maria Madalena “vê” a pedra retirada do túmulo (v. 1), o outro discípulo “vê” os panos de linho no sepulcro e, finalmente, Pedro “contempla” os panos e o sudário dobrado posto à parte (vv. 6-7).

O discípulo que havia chegado primeiro ao túmulo “viu e acreditou” (v. 8). Este “ver” da fé não é simplesmente o ver dos olhos que veem as evidências do túmulo vazio e dos panos, mas sim, o “despertar” do encontro que faz “ver” o essencial invisível aos olhos.

Todos os testemunhos visíveis da ressurreição de Jesus, bem como de Seu ministério terrestre, permanecem mudos sem a iluminação da fé que brota do encontro. De fato, Maria Madalena diante do túmulo vazio, prova visível da ressurreição, se retira horrorizada pensando que haviam levado embora o corpo do seu Senhor. Mas, depois, enquanto chorava sozinha junto à tumba vazia, o Senhor mesmo lhe vem ao encontro e a chama pelo nome: “Maria!” (v. 16). Neste momento, ela é iluminada, dissipa-se a “escuridão” que a envolvia e a fizera confundir Jesus com o jardineiro. Com este encontro, porém, tudo mudou. Ela pôde reconhecê-lo plenamente e identificá-lo, sem sombra de dúvida, respondendo-lhe em linguagem familiar: “Rabbuni”, que quer dizer, “Mestre!”. Ela havia saído à procura do “Morto” e foi encontrada por “Aquele Que Vive” (v. 16).

Maria, Pedro e o outro discípulo representam cada um de nós. Do “meio da noite” da nossa falta de fé, somos chamados a sair ao encontro de Cristo, nossa Luz. A caminhada na fé não se ilumina por provas materiais fundamentadas no conhecimento humano, mas pelo encontro pessoal com Cristo. É desse encontro que jorra uma Luz envolvente que enche o nosso coração de imensidão, habilitando-nos a reconhecer “sinais” invisíveis aos olhos.

Escrito por
Frei Aloísio, Ministro Provincial
Frei Aloísio Oliveira

É Ministro Provincial da Província São Francisco de Assis dos Frades Menores Conventuais e especialista em Sagrada Escritura.

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