Por Túlia Savela Em Catequese Bíblica Atualizada em 01 ABR 2020 - 15H27

Tempo de meditar as dores de Maria

Professora Dita convida-nos a conhecer, refletir e rezar, nesta semana que antecede a Semana Santa, diante das Sete Dores de Maria. Saiba quais foram e por quê





Por Dita Souza, teóloga, biblista, conferencista, professora e escritora

A devoção a Nossa Senhora das Dores teve início em 1221, no Mosteiro de Schönau, na Germânia. A Igreja faz memória desse título desde o dia 15 de setembro de 1239.

Nesse momento quando o tempo não tem tanta importância, quando nos dedicamos mais à oração e reflexão, podemos olhar para dentro de nós e observar o quanto Deus nos ama na pessoa de Jesus Cristo, dos Santos que intercedem por nós, e de Maria a quem chamamos de Mãe por ordem do próprio Jesus, que por São João nos disse: ”Eis aí tua mãe...” (Mt 19,27).

Ela, como toda mãe, se preocupa em buscar soluções de todas as formas para sanar o sofrimento de seus filhos; e assim Ela pode entender perfeitamente o nosso sofrimento hoje, e com a ajuda de seu Filho pode nos direcionar para o caminho correto a percorrer.

Lembrar as dores de Nossa Senhora significa, para cada um de nós, a identificação com o seu sofrimento, e nos inspira a, como Ela, conseguir transpor com humildade, perseverança, fé e esperança todos os obstáculos, na certeza de que Deus está atento, que “Ele ouve nossos gemidos e atende o nosso clamor...” (Ex 2,24). ”Maria foi preservada do pecado, mas não da dor. Ela é a Mãe de Deus, mas não deixou de ser humana” (Ricardo Cordeiro, seminarista).

Por isso, nesta semana que antecede o início da Semana Santa, acompanhemos seu sofrimento tendo a certeza de que vamos ser ouvidos por Deus como Ela.

Em meditação, vamos refletir cada uma das dores da Virgem Maria, nos colocar no seu lugar, imaginar e sentir juntos as agonias, tribulações e angústias que Ela viveu em relação a vida de seu Filho, sem que pudesse evitar tão grande sofrimento, apenas rezar e pedir ao Pai Sua proteção, força e fé.

Seguir Maria em suas dores é aprender com Ela a ser servos fiéis, amar ao Pai incondicionalmente, andar em Seus caminhos, ter a certeza de que Ele nos ouve, saber esperar com paciência, mesmo não entendendo os acontecimentos, como Ela o fez.

Talvez por isso a imagem que mostra o sofrimento de Maria tenha tantos títulos: Nossa Senhora das Dores, Nossa Senhora da Piedade, Nossa Senhora do Pranto, Nossa Senhora das Angústias, Nossa Senhora das Lágrimas e Mãe Dolorosa.

A devoção a Nossa Senhora das Dores teve início em 1221, no Mosteiro de Schönau, na Germânia. A igreja faz memória desse título desde o dia 15 de Setembro de 1239.

As Sete Dores de Maria

Vamos conhecê-las. Simbolicamente, elas têm sua procedência na devoção popular, mas são fundamentadas nos Evangelhos.

1ª dor - A PROFECIA DO VELHO SIMEÃO – Aconteceu quando Maria e José levaram seu filho Jesus aos oito dias de nascido ao Templo, para que fosse circuncidado e recebesse um nome, como toda criança judia. Fielmente, junto com São José, os dois cumprem as Leis do seu povo (Gn 17,12; Lv 12,1-8; Lc 2,21-40).

Maria humildemente ouviu a profecia do idoso Simeão: “UMA ESPADA TRASPASSARÁ A TUA ALMA...”. Guardou o que ele disse em seu coração por mais de 30 anos, quando a viu se cumprir.

2ª dor - A FUGA PARA O EGITO – Diante da situação de perseguição pelo Rei Herodes ao Menino Jesus, São José, avisado pelo mensageiro de Deus, foge para o Egito. De acordo com São Mateus, o Menino Jesus tinha por volta de dois anos; é quando este Rei, ao perceber estar se cumprindo a profecia dos judeus de que um Rei deveria nascer e este poderia, segundo ele, ocupar o seu trono, se desespera e ordena aos seus soldados que matem todas as crianças até dois anos (Gn 49,10; Is 9,6; Mq 5,2; Jr 31,15; Mt 2,13-16).

Maria e José, mesmo diante de tanto sofrimento, oram e obedecem ao seu Deus. Chegam ao Egito como peregrinos numa terra estranha, sem conhecer ninguém, sem casa, sem emprego, o povo com outra religião e para quê e por quê? Não sabiam, mas seguiam fiéis aos desígnios de seu Deus.

Maria sofre muito, se preocupa, será que irão encontrá-los? Muda de casa por diversas vezes tentando preservar a vida de seu filho. Seu coração está sempre em sobressalto.

3ª dor – O SUMIÇO DE JESUS – O tempo passa, a família sagrada retorna com seu filho Jesus do Egito e vão morar em Nazaré, quando possivelmente Ele teria por volta de cinco anos, e a vida na aldeia continua normal.

Os afazeres das famílias continuam, na plantação do trigo, da cevada, na poda das parreiras, dos figos, as colheitas ano a ano, as festas... Mas chega o tempo mais importante para Jesus como um menino judeu, o seu Bar Mitzvah (filho do mandamento/ filho da Lei).

Sua mãe, como manda a tradição, desde muito tempo tece um manto de oração (Talit) de lã para presenteá-lo no dia da festa; e vão todos para Jerusalém. São 150 quilômetros de estradas de terra ruins, cheias de assaltantes, acidentes com as carroças etc. Mas vale a pena, é uma festa única na vida do Menino Jesus.

Enfim, depois de dias de viagem, chegam a Jerusalém junto às dezenas de caravanas que se dirigem ao Templo. Têm início as festividades, compostas de orações, procissões, celebrações litúrgicas, sendo que a mais importante era a do Bar Mitzvah, pela qual a sagrada família esperava ansiosa.

Esta cerimônia, que acontecia no Templo, se dava quando o menino judeu completava 12 anos e atingia a maioridade religiosa judaica. Para marcar esta passagem, era celebrado o seu Bar-Mitzvá, uma cerimônia que ressalta a importância de cada um dos judeus na corrente ancestral do judaísmo, uma das tradições do seu povo.

Ainda hoje, o Código de Lei Judaica ensina que a partir dos 12 anos, e tendo celebrado seu Bar Mitzvah, a confirmação como filho da Lei, os jovens passam a ser totalmente responsáveis pelo cumprimento dos Mandamentos Divinos da Torah, não mais os cumprindo apenas porque assim seus pais lhe ensinaram.

Por força dessa tradição, todos os garotos recebiam uma instrução elementar, a qual compreendia a leitura, a escrita, a história do povo judeu na Torah e o conhecimento dos principais Salmos da Bíblia, adotados como orações. Seu pai, portanto, deixava de ser o único responsável pelos seus atos, mas sua mãe não.

Foi nesse contexto descrito por São Lucas (2,41-52) que São José e Nossa Senhora, quando retornam da festa, se dão conta que Jesus não está com eles na caravana. Aflitos eles voltam a Jerusalém e encontram Jesus no Templo, no meio dos doutores. Possivelmente, no entender de Jesus, como humano, Ele agora já estava apto para cuidar das coisas de Seu Pai do céu, já era um adulto perante a Bíblia; mas São Lucas ressalta que Ele, vendo a “dor de Sua mãe” e de Seu pai José, volta obediente para casa.

Essa foi a terceira dor de Maria ao sentir que tinha perdido seu filho. Aí eu me pergunto: quem de nós mães, um dia, por alguns momentos, não já perdemos algum de nossos filhos num shopping, numa loja, na feira etc. Lembram a dor que sentimos? Assim se sentiu Nossa Senhora...

“Que as Sete Dores de Nossa Senhora, nesse nosso isolamento, neste tempo de sofrimento, nos ensinem a ver claramente as virtudes que devemos praticar: a paciência, a oração, a ajuda mútua, o serviço ao irmão, a humildade e principalmente a fé. A dor e o sofrimento são virtudes dos Santos.” Professora Dita


4ª dor - O CAMINHO DE JESUS PARA O GÓLGOTA – esta grande dor de Maria se deu quando Ela se encontra com seu filho a caminho do Calvário, é algo que não conseguimos medir de tamanho sofrimento.

Desde o século IV d.C., milhares de cristãos têm encontrado consolação em caminhar onde Maria encontrou seu Filho carregando a cruz pela Via Dolorosa, a saber, “o caminho do sofrimento” ou “o caminho doloroso”.

Essa rota de mais ou menos 700 metros de comprimento segue pela Cidade Velha de Jerusalém, às vezes, por dentro do mercado, mas, no tempo de Jesus, eram ladeiras de terra e pedras até onde centenas de cruzes mostravam a degradação do ser humano.

Conforme João 19,17, foi por estas vielas que a Santa Mãe Maria seguiu seu Filho que dolorosamente carregava a trave de cerca de 50 quilos nos ombros nus, sabendo que dali a poucas horas estaria morto.

Por certo, eles se olharam várias vezes, e uma dor sem tamanho inundou o coração de Maria ao vê-lo ensanguentado, cheio de dor e cansaço, sem que Ela nada pudesse fazer a não ser chorar, rezar e acompanhá-lo até o Calvário, amparada por São João (Lc 23,27-31).

Esse encontro especial de Maria com seu Filho é a visão do amor de Jesus por você e por mim. A cena é bem descrita na Via-sacra, na quarta estação.

Na subida para o Calvário, Jesus certamente fixa o olhar em Sua mãe. Maria tem consciência de quem é seu Filho. Sabe que Ele vem de muito mais do que de seu ventre, Ele é divino. Ela também sabe que Ele tem uma missão a cumprir e que aquele sofrimento é parte dela. Ela sabe que seu filho não é só dela, mas de todo o ser humano, que é por quem Ele está ali.

5ª dor - A CRUCIFICAÇÃO – (João 19,25-27). Maria está ao pé da cruz, diz São João, local proibido para as mulheres, que só podiam ficar a 30 passos, mas Maria permanece aos pés de seu Filho na cruz. Ela sofre com Ele e o ajuda a carregar o peso das nossas cruzes. Tocando naquele corpo quase sem vida, Maria mais uma vez sente uma espada transpassando a sua alma, mas, em obediência, continua de pé esperando as ordens do Pai.

“Eis a tua Mãe”, diz Jesus. É ali que nasce o embrião daqueles que hoje têm Maria como sua mãe, porque nos foi presenteada por seu Filho antes de morrer na cruz. Jesus pensou em nós como irmãos e assim oferece Sua mãe à nova Igreja que em breve surgirá como família. Agora temos uma mãe.

Logo após estas palavras pronunciadas por Cristo na Cruz – "eis a tua Mãe (...) eis o teu filho" –, conta o Evangelho que dali em diante o discípulo João a levou para sua casa em Éfeso (Jo 19,27), cuidando e sendo cuidado por Ela até o fim dos seus dias, passando a denominar-se de Nossa Senhora de todos nós.

6ª dor - A DEPOSIÇÃO DA CRUZ – Chegamos à penúltima dor de Maria quando Jesus é descido da Cruz sem vida e entregue a Ela (Mateus 27,55-61).

Ela o recebe, contempla seu rosto e chora. Imaginem a cena... como uma mãe se sentiria tendo seu filho morto injustamente em seus braços? Mas, como serva do Senhor, ao mesmo tempo, Ela pensa na ressurreição prometida por Ele.

E espera! Espera a decisão de Pilatos acerca do sepultamento. Judia de nascimento, Maria sabia das leis romanas que regiam seu país. Todo crucificado não merecia ser enterrado, mas deixado apodrecer na cruz.

Sabemos, pelos Evangelhos, que dois judeus que eram Seus discípulos às escondidas, Nicodemos e José de Arimateia, homens ricos e influentes no cenário do Sinédrio e que tinham entrada franca na presença do governador, vão até ele pedir o corpo de Jesus antes das 18h, pois logo seria o Shabat (Mc 15,42-46).

7ª dor - O SEPULTAMENTO DE JESUS - (Jo 19, 38-42)

Mesmo com a ordem de Pilatos em mãos, que podiam tirá-lo da cruz, o drama entre os dois discípulos continuava: onde enterrá-lo? Novamente o prestigio de José de Arimateia vence a teimosia de Pilatos, que permite que Jesus seja colocado num rico túmulo que ainda não tinha sido usado e que a ele pertencia.

Os dois voltam ao Calvário com a ordem de Pilatos para o sepultamento e contam tudo aos discípulos e a Sua mãe. Mais uma vez, Maria se alegra, sofre, chora, mas não diz nada. Em seu coração, agradece a Deus a graça de poder estar com seu Filho.

Reconhecendo que nesta vida sofremos pelo peso dos nossos pecados, e mais ainda nesse tempo atual de doenças invisíveis, que nos atacam sem termos o conhecimento verdadeiro de como evitar, só Deus para nos proteger e nos guardar de todo mal.

Mas, ao mesmo tempo, nos alegramos por saber que Jesus morreu por amor a todos nós e queremos, como Nossa Senhora, permanecer na fé; no silêncio do nosso coração, viver a esperança da misericórdia e do perdão, ter a certeza de que tudo isso vai passar... Nada acontece por acaso, mas tudo tem o propósito de Deus; não sabemos qual seja, mas, como Nossa Senhora, confiamos nas promessas: “Estarei convosco até o final dos tempos...” (Mt 28,20).

Que as Sete Dores de Nossa Senhora, nesse nosso isolamento, neste tempo de sofrimento, nos ensinem a ver claramente as virtudes que devemos praticar: a paciência, a oração, a ajuda mútua, o serviço ao irmão, a humildade e, principalmente, a fé. A dor e o sofrimento são virtudes dos santos.

Uma boa continuidade em nossa quarentena, uma Semana Santa de reflexão, oração e jejum, pois em breve estaremos nos abraçando, festejando e agradecendo por um novo tempo.

Tudo passa!

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