"Disse o Senhor: 'Se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a esta amoreira: Arranca-te e transplanta-te no mar, e ela vos obedecerá.' (Lucas 17,6)
Talvez essa não seja a pergunta certa. O problema nunca foi a fé ser pequena, porque o próprio Cristo nos diz que, mesmo mínima, ela já seria suficiente para mover o impossível. A inquietação nasce quando olhamos para a própria vida e concluímos que, se a fé fosse real, o extraordinário já estaria acontecendo de forma visível.
Mas será que não está?
Há uma tendência silenciosa em medir a ação de Deus pela grandeza dos acontecimentos. No entanto, alguém uma vez me disse algo que nunca mais saiu da minha cabeça: quem se importa em ser grande somos nós; Deus valoriza o pouco.
O erro está em confundir pouco com falta. Por isso repetimos, quase como consolo, que o pouco com Deus é muito, enquanto esquecemos que o próprio Senhor nos orienta:
“Não desprezeis o dia das coisas pequenas, pois o Senhor se alegrará ao ver a obra começar.” (Zacarias 4,10)
Isso não significa que Deus se agrade apenas do mínimo. A abundância nunca foi um problema para Ele. A própria Escritura reafirma que o início não define o fim:
“O teu começo parecerá pequeno, mas o teu futuro será grandioso.” (Jó 8,7)
A questão, portanto, nunca esteve na quantidade, mas na relação.
É por isso que a pouca fé nunca foi o verdadeiro obstáculo. O que falta, na maioria das vezes, é intimidade com Deus.
Há uma cena na série The Chosen que ilustra bem isso. Maria Madalena se afasta porque não se sente digna do amor que recebeu. Não por falta de fé, mas por vergonha. Quantas vezes fazemos o mesmo? Quando falhamos, quando não correspondemos à imagem que criamos de nós mesmos, preferimos nos afastar. A oração vira evento, a conversa vira protocolo, e se não acontece como planejado, simplesmente não acontece.
Rotina e previsibilidade são virtudes, e o livro de Provérbios é claro quanto a isso. O problema começa quando a rotina ocupa o lugar do encontro. Nenhuma amizade verdadeira se sustenta sem conversa. Intimidade nasce da presença repetida, imperfeita, mas real.
Pense nas pessoas com quem você se sente seguro para correr quando tudo desmorona. Essa confiança não surgiu de um único momento extraordinário, mas de muitas conversas comuns, de escuta, de permanência, de ausência de julgamento. Com Deus não é diferente.
O rei Davi errou muito, mas nunca deixou de buscar a companhia e o perdão do Senhor. Sua fé não era fruto de perfeição, mas de proximidade.
Talvez, para viver uma fé mais ativa em 2026, seja preciso menos. Menos culpa, menos ruído, menos necessidade de parecer espiritual. Ser menos Marta e aprender, pouco a pouco, a simplesmente estar como Maria.
Tirar a culpa do centro e assumir a responsabilidade é um bom começo. Não como condenação, mas como retomada de consciência. Dizer “não tenho tempo para Deus” pode soar duro, mas devolve a verdade e o poder de escolha.
Criar pequenas pausas ao longo do dia ajuda mais do que grandes promessas não cumpridas. Parar por um instante e se perguntar se aquilo que se vive naquele momento reflete a imagem e semelhança de Deus já é oração.
Também é preciso silenciar o fariseu interior. Ninguém é melhor por frequentar a Igreja, ler a Bíblia ou rezar. Fazemos isso porque precisamos d’Ele. Porque fomos amados primeiro e escolhemos permanecer perto.
Falar com Deus não exige palavras bonitas. Exige verdade. A mesma verdade que você usa ao contar seu dia a um amigo.
Começar a oração agradecendo é uma forma de mudar sua perspectiva - inclusive agradeça pelas bênçãos que você recebe diariamente, mas não percebe.
2026 pode ser apenas uma mudança no calendário ou uma mudança no coração. O que define isso não são promessas grandiosas, mas hábitos silenciosos. A fé é, antes de tudo, um ato de confiança, e só confiamos verdadeiramente naquilo que conhecemos. Conhecer a Deus é a forma mais concreta de permitir que até a fé mais simples mova montanhas.
Quando se entende que o problema nunca foi o tamanho da fé, mas a profundidade da intimidade, o extraordinário deixa de ser expectativa e passa a ser caminho. Pense nisso e construa um ótimo 2026.
Salve Maria Imaculada!
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