Colunista

A Quaresma é o deserto que você precisa viver

Por que Deus permite o deserto? E como viver os quarenta dias da Quaresma com propósito?

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Barbara Rodrigues

Escrito por Barbara Rodrigues

13 FEV 2026 - 13H00 (Atualizada em 16 FEV 2026 - 15H15)

Acordei às 5h e fui lavar o rosto. Em frente ao espelho, tive um momento de epifania: achamos que tudo o que é ruim vem do Diabo e o que é bom vem de Deus, mas muitas vezes o que parece ruim nos faz amadurecer. Se é assim, talvez esperar apenas o bom em nossa vida seja afastar Deus dela.

Claro que esse pensamento veio de várias conexões neurais, experiências vividas e, especificamente, de um podcast que ouvi há cerca de uma semana. O palestrante falava sobre a vida de Jesus antes de vir a ser conhecido, aos 30 anos. Ele explicava que para Jesus não deve ter sido fácil. Cresceu com a promessa de Deus em seu coração e com o testemunho do nascimento contado por sua mãe, mas, no dia a dia, era apenas o filho de Maria e do carpinteiro, fazendo coisas comuns. Depois tudo muda quando é batizado pelo Espírito Santo, pelas mãos de João Batista, e publicamente vem o reconhecimento de Deus: “Este é meu Filho amado, em quem eu me agrado” (Mateus 3,17).

Imagino que esse tenha sido um momento especial, extraordinário, depois de tantos anos de silêncio e espera. E logo depois a Bíblia nos conta que, pelo Espírito Santo – veja bem, estamos falando do Espírito Santo –, Jesus foi conduzido ao deserto para ser tentado. Durante quarenta dias ele foi tentado. Jesus sai de um momento de alegria e exultação e vai direto para um momento de angústia.

Quantas vezes não está tudo lindo e maravilhoso em nossa vida e, de repente, algo acontece e nos tira o chão. Pois bem, aconteceu com Jesus também.

Eu quero que você vá além e pense no Salvador no deserto: imundo, magro, com mau hálito, com fome, fraco e, para completar, com a companhia do Diabo. Já o Diabo, em seu aparente esplendor, imagino-o vestido de luz para contrastar com a fragilidade visível de Jesus, com aparência impecável, palavras organizadas, argumentos que soavam coerentes. Para fazer o Filho de Deus duvidar, não viria com chifres e gritos, mas com discursos revestidos de bem, de verdade e de amor distorcidos, trazendo histórias que faziam sentido, que poderiam levá-lo a questionar se era mesmo o Filho de Deus, prometendo aquilo que já era de Jesus, mas que, naquele momento de aparente pequenez, parecia distante da realidade.

Por que Deus quis isso para Seu Filho amado? E se Ele permitiu isso com o Filho em quem se agradava, o que isso nos diz sobre os desertos que atravessamos?

O deserto é extremamente hostil: calor torturante de dia, frio intenso à noite, falta de água, alucinações, isolamento, silêncio.

Mas quem sai de um deserto sai diferente. Não diria apenas mais forte, mas mais profundo, menos impressionável, alguém que aprende a confiar no que sustenta a vida quando não há palco. O que somos, diante da imensidão da natureza, senão filhos amados.

A missão de Jesus foi um caminho cheio de coisas difíceis e necessitou de preparo – mas quem precisa de preparo para lidar com o que é bom? 

Sendo assim, o deserto é lugar de preparação. Não temos um deserto literal, nem desejamos passar por essa experiência, mas existe o deserto da alma. A Quaresma é esse deserto de quarenta dias. Se você compreende toda a simbologia, entende que esses quarenta dias são um presente e uma oportunidade de se tornar alguém mais conectado com a própria essência que clama por Deus.

Uma forma particular de aproveitar melhor esse período é escrever um diário de Quaresma. Por quarenta dias me aproximo de Deus escrevendo meus sentimentos, desafios e pensamentos, tudo o que sinto que devo escrever, sem pressão. A neurociência comprova que escrever à mão tem o poder de organizar melhor o pensamento. Faço isso desde que me entendo por gente. Quando você tem um caderno ou folhas para consultar, eterniza com fidelidade seus momentos. É quase um luxo. Quando eu tiver setenta anos, terei acesso ao meu pensamento de treze. Sem contar que me sinto mais próxima de Deus ao expressar com clareza o que antes estava envolto em tanto barulho externo. É como se eu dissesse: “Ei, Deus, é realmente isso que eu queria dizer, é isso que eu precisava dizer”.

O que facilitou essa prática diária na Quaresma foi usar o Diário Mariano da MI. Ela tem espaço real para escrever, e você vai precisar de páginas. Além disso, cria um ambiente propício para reservar um tempo de qualidade com Deus, com textos mensais de espiritualidade, reflexões bíblicas e, principalmente, a liturgia diária, que direciona minha leitura do dia.

Vou deixar o link caso você queira aderir à mesma prática que eu:


Saiba Mais Sobre o Diário Mariano 2026

Enfim, o deserto é algo que, humanamente, se pudéssemos, não escolheríamos viver. Parece que não é de Deus, mas é exatamente ali que Ele trabalha com mais profundidade. Talvez o erro esteja em esperar apenas os aplausos do céu e rejeitar os silêncios que nos moldam. Não ignore o momento desafiador que está atravessando, não tente resolvê-lo apenas com suas próprias capacidades. Contemple-o sem pressa, permita que ele revele o que ainda precisa ser purificado em você. Não tenha medo de se tornar outra pessoa, se isso significa crescer em virtudes.

Quando pensar em dar ouvidos ao Diabo, lembre-se de Jesus magro, fraco, sujo, sustentado apenas pela certeza de quem Ele era. Lembre-se de que antes da cruz houve o deserto, e antes do reconhecimento público houve o silêncio. Se você está sendo tentado, talvez seja porque há algo em você que precisa ser provado, aprofundado, confirmado. Discernir entre a voz que edifica e a que puxa para baixo exige intimidade com Deus, e a Quaresma é o tempo em que Ele nos leva para o espelho, para o silêncio e para o deserto, não para nos afastar, mas para nos tornar mais conscientes de que somos, acima de tudo, filhos amados.

Escrito por:
Barbara Rodrigues
Barbara Rodrigues

Barbara Rodrigues é formada em Letras pela Faculdade São Bernardo (FASB), escritora, mentora de liderança e consultora de imagem e estilo. Interessada em literatura, espiritualidade e desenvolvimento humano, dedica-se a reflexões sobre fé, comportamento e propósito, unindo essência, presença e responsabilidade na forma de viver e liderar.

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