Eu já pensei isso, você muito provavelmente já pensou isso, Natanael pensou isso e, sem dúvida alguma, José do Egito também pensou.
Há momentos em nossa vida em que parece não haver resposta alguma, em que rezamos e rezamos e, ainda assim, nada muda, momentos em que, mesmo procurando viver segundo nossos princípios, as coisas insistem em dar errado e então o coração começa a se questionar em silêncio: por quê? Deus não me vê?
No segundo episódio da segunda temporada da série The Chosen, esse sentimento é ilustrado de forma muito sensível. Natanael aparece desolado, clamando por Deus debaixo da figueira, mas, aparentemente, nada acontece. O céu permanece em silêncio, a dor permanece no peito e a sensação de abandono parece se confirmar. Até que, em um encontro com Jesus, tudo ganha um novo sentido.
Jesus vê Natanael se aproximar e diz a seu respeito: “Eis um verdadeiro israelita, em quem não existe fingimento algum”. Surpreso, Natanael pergunta: “De onde o Senhor me conhece?”. E Jesus responde: “Antes de Filipe chamá-lo, eu já tinha visto você debaixo da figueira” (João, 1, 47-48).
A indiferença é um dos sentimentos mais vorazes da humanidade. Não ser visto, não ser lembrado, não ser considerado faz com que a pessoa sinta que poderia desaparecer sem que ninguém percebesse, como se a própria existência perdesse o sentido. É uma dor silenciosa, mas profundamente corrosiva.
E então surge a pergunta inevitável: por que Deus nos permite passar por isso?
A Sagrada Escritura nos oferece uma resposta clara quando observamos a história de José, filho de Jacó, e a forma como ele se deixou conduzir por Deus em meio a tantas injustiças. Vou destacar apenas alguns momentos-chave, mas vale a pena ler a história na íntegra e meditá-la com calma, pois ela se encontra no livro do Gênesis, capítulos 37 a 50.
José era filho de Jacó com Raquel. Jacó tinha outros filhos com Lia e com as servas, mas José ocupava um lugar especial em seu coração. Por ter sido muito aguardado e considerado quase um milagre, já que Raquel - a esposa amada - o concebeu na velhice quando todos acreditavam em sua infertilidade, José tornou-se o filho preferido, o que despertou a inveja de seus irmãos. Ainda jovem, imaturo e mimado, recebeu de seu pai a túnica de várias cores, um sinal claro de que seria o herdeiro, e, agravando ainda mais a situação, contou precipitadamente aos irmãos um sonho no qual eles se curvariam diante dele. Esse foi o estopim.
José foi vendido pelos próprios irmãos como escravo a mercadores ismaelitas que seguiam para o Egito. Aquele menino que até então tinha tudo, que não precisava trabalhar, que vivia sob proteção, de repente se vê arrancado de casa, traído pelos seus e reduzido à condição de escravo. Mesmo assim, José não se revolta. Ele dá o seu melhor e passa a servir na casa de Potifar, oficial do faraó.
José era jovem, bonito e íntegro, e isso despertou o desejo da esposa de Potifar, que tentou seduzi-lo. José permaneceu fiel aos seus princípios e a Deus, recusando-se a cometer o pecado. Sentindo-se rejeitada, a mulher o acusa falsamente, e José é lançado na prisão.
Aqui a pergunta se impõe com força: como assim? Ele foi justo e foi preso por algo que não fez. Como Deus permitiu isso?
Imagine o estado interior de José. Vendido pelos irmãos, feito escravo, agora injustiçado e encarcerado. Havia todos os motivos humanos para a revolta, para o endurecimento do coração, para a perda da fé. No entanto, mais uma vez, José escolhe ser fiel. Ele se torna o melhor entre os presos, digno de confiança, a ponto de receber responsabilidades dentro da prisão.
É ali que surgem o copeiro e o padeiro do faraó. José interpreta seus sonhos e pede que se lembrem dele quando tudo se cumprir. Mas o esquecimento vem. O tempo passa. Nada muda. Mesmo sendo fiel, mesmo fazendo o bem, mesmo carregando uma promessa, José permanece onde está.
Até que, no tempo certo, ele é lembrado. Chamado à presença do faraó, interpreta seus sonhos e, finalmente, encontra o destino que Deus havia preparado para ele desde o início.
Na história de José, fica claro que a espera, o processo doloroso - de 13 anos - e o aparente silêncio de Deus não eram abandono, mas preparação. Tudo fazia parte de um plano para torná-lo resiliente, para colocar seu amor a Deus acima de qualquer conforto, para transformar o menino imaturo em um homem forte física, emocional e espiritualmente, capaz de sustentar um reino.
Talvez você se reconheça nessa pergunta: “Eu ainda estou no processo. Como lidar com esse sentimento de esquecimento?”
A resposta é a fé, mas uma fé viva e ativa. Fé naquilo que Deus te prometeu, mesmo quando nada parece confirmar essa promessa. Fé que se manifesta em atitude, em perseverança, em fidelidade ao que é nobre. Reze, chore se for preciso, apresente sua dor a Deus, mas continue fazendo o bem, continue se preparando, continue se tornando a pessoa capaz de sustentar aquilo que Ele sonhou para você.
Se a espera está longa, existe um porquê. Confie.
Deus não te esqueceu. Ele te ama. E um bom Pai, por vezes, observa em silêncio e permite que o filho caminhe com as próprias pernas, não por indiferença, mas porque sabe que esse crescimento o tornará mais forte, mais maduro e mais preparado para aquilo que ainda virá.
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