Por Frei Aloísio Oliveira Em Lendo o Evangelho Atualizada em 02 DEZ 2021 - 16H06

Fundamento da esperança cristã: o Fim Último desde o presente

No primeiro domingo do Advento, vamos falar sobre a esperança sobre o fim do mundo




Na comunidade cristã primitiva em que o evangelista São Lucas atuava havia alguns membros exaltados que acreditavam que o fim dos tempos fosse acontecer em breve; havia também cristãos tão desanimados e sem esperança que já não acreditavam mais em nada. Nesse contexto, usando figuras de linguagem, tiradas especialmente dos Livros dos Profetas, o evangelista procura esclarecer e sustentar a fé cristã em momentos difíceis. Porém, ele não fornece informações exatas sobre o fim do mundo. O intuito de Lucas é restabelecer a esperança cristã no acontecimento central da morte e ressurreição de Jesus. Desde a passagem de Jesus Cristo na terra, o fim de todas as coisas não é mais uma utopia genérica sobre um futuro glorioso profano do povo de Israel, mas o encontro decisivo com o “Filho do Homem”, que é garantia e a primícia da libertação humana.

Portanto, a última palavra sobre o fim, como brota das páginas do evangelho, longe de ser uma evasão da realidade histórica, que sustenta visões milenaristas alienadas, é uma convocação à atenção, à reflexão, à concentração no presente. Sua função é levar os cristãos a decifrar, na história, os sinais que fazem pressagiar, já agora, a passagem da morte à vida, da escravidão à liberdade, como os primeiros brotos da figueira que anunciam a estação frutífera após o inverno (cf. Lc 21,29-30). Por isso, os cristãos familiarizados com a mensagem do evangelho não perdem o contato com a vida real inquietando-se com a data exata do fim do mundo, mesmo quando o momento presente é marcado por violências, perseguições e injustiças absurdas que podem levar o desejo do fim definitivo.

Embora a palavra do evangelho sobre os acontecimentos futuros não forneça aos cristãos uma certeza que os torne invulneráveis ao imprevisível, eles não temem ser desmentidos em sua expectativa, porque essa é sustentada pela solidez da promessa de Deus, que lhes permite olhar para o futuro com esperança.

Mas, a este ponto uma pergunta nos inquieta a todos: se uma coisa da qual ninguém pode duvidar é que tudo tem um fim, seja o ser humano, sejam as coisas que o rodeiam, por que então a Palavra de Deus não transmite uma comunicação sobre o momento exato em que vai ocorrer? Pois primeiramente, é necessário saber que a Palavra de Deus está na dimensão da fé. Certeza é constitutiva da ciência, não da fé. O que constitui a fé é a fidelidade. Portanto, o obstáculo à fé não é a incerteza, mas a infidelidade. Por isso que o texto sagrado insiste, até à exaustão, na necessidade da fidelidade perseverante. Por outro lado, o conhecimento do momento exato do “fim” implicaria uma alienação devastadora para o ser humano. Todo o valor e importância do momento presente ficariam completamente esvaziados. Pois, o valor do agora reside no fato que pode ser sempre o último momento, ele pesa com todo o peso de sua unicidade, porque nele a vida, cada vez, se concentra inteiramente.

É tão importante para o exercício da verdadeira liberdade conservar constantemente presente a perspectiva do fim, quanto ignorar o momento de sua vinda. Portanto, a única atitude razoável é viver nesta perspectiva cada momento e cada ato da vida. É comportar-se como se tudo estivesse por acontecer. Mas não é um fazer de conta, pois tudo acontece agora realmente. Trata-se de interiorizar o juízo, de viver desde agora a própria morte. Em outras palavras, de caminhar na presença de Deus. Cada um de nossos atos, de fato, nos julga desde agora e Deus não é aquele que encontraremos no fim de nossa estrada. Ele é o Emanuel, aquele que caminha conosco.

Mas, por que falar do juízo final no primeiro domingo do Advento, tempo de esperança? Como foi dito anteriormente, as páginas do evangelho sobre o fim do mundo destilam esperança. Falar do fim das coisas é falar de sua convergência para Deus, Princípio e Término de tudo. O fundamento da esperança cristã reside na possibilidade de viver, desde o presente, o Fim Último de todas as coisas. Quem vive cada momento desde o “Fim Último” não teme o destino.

Escrito por
Frei Aloísio, Ministro Provincial
Frei Aloísio Oliveira

É Ministro Provincial da Província São Francisco de Assis dos Frades Menores Conventuais e especialista em Sagrada Escritura.

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