Por Paulo Teixeira Em Formação

Pai-nosso

Rezar e construir

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O homem que reza se faz Reino de Deus, e a oração se mostra como marco de Deus no sentido da vida da pessoa. Na tradição judaica temos a oração cotidiana do Shema Israel: “Escuta, Israel: o Senhor é o nosso Deus, o Senhor é um só. Tu amarás o Senhor teu Deus com todo o coração, com toda a alma e com todas as forças ”. (Cfr. Dt 6,4; 11,13; Nm 15,37-41). “A recitação desta oração era interpretada como o tomar sobre si o jugo do senhorio de Deus: esta oração não é somente palavra; recitando-a, o orante acolhe o senhorio de Deus, que assim mediante o ato daquele que reza entra no mundo, trazida também por ele e, determinando através da oração o modo de viver, o cotidiano, se torna presente naquele lugar do mundo” (RATZINGER, Joseph. Jesus de Nazaré. Planeta: São Paulo. 2007. Pg, 80).

A crença do povo no Reino que dá sentido se manifesta, também, na antiga oração chamada Qaddish. Embora recitada em lugares retirados, como no mosteiro de Qumram, nas liturgias de sábado, esta oração exprime também um projeto de vida. A oração, em geral, é tratada como um colóquio com Deus, uma ponte entre o criador e a criatura.

No Quaddish percebemos que é uma ponte que liga projetos de vida. O projeto de paz que Deus tem para seu reinado e o projeto do homem que se abre, desejando que em sua vida irrompa o Reino. Assim diz a recitação: “Que seu nome grande seja exaltado e santificado no mundo que ele criou segundo sua vontade. Que seu Reino irrompa em nossa vida e em nossos dias, nos dias de toda a casa de Israel, prontamente e sem demora ... que uma paz abundante vinda do céu assim como a vida venham imediatamente sobre nós e sobre todo Israel”.

No novo testamento encontramos a invocação da Oração do Senhor pedindo que ‘venha a nós o teu Reino’, este pedido é para que se instaure na pessoa e na comunidade o senhorio de Deus, que logo no início da oração é chamado de Pai. “‘venha o teu Reino’. A expressão é nova e descobre seu desejo mais intimo: Pai, vem reinar. A injustiça e o sofrimento continuam presentes em toda parte. Ninguém conseguirá extirpá-los definitivamente da terra. Revela tua força salvadora de maneira plena. Só tu podes mudar as coisas de uma vez por todas, manifestando-te como Pai de todos e transformando a vida para sempre” (PAGOLA, José Antonio. Jesus. Aproximação histórica. Ed Vozes: Petropolis. 3º edição. 2010. Pg 139).

Esta súplica pelo Reino tem sentido por que ele nos transforma, nos faz mais audazes, mas de Deus e mais felizes. Quando Jesus nos ensina no seu modelo de oração a suplicar pela vinda do Reino. “O Senhor quer conduzir-nos justamente para este modo de rezar e de estabelecê-lo como prioridade do nosso agir. A primeira coisa, aquela essencial, é o coração dócil, para que seja Deus a reinar e não nós. O Reino de Deus vem através do coração dócil. Este é o seu caminho. E por isso nós devemos rezar sempre” (RATZINGER, Joseph. Jesus de Nazaré. Planeta: São Paulo. 2007. Pg, 177).

O Reino depende do seu soberano, é ele que sustenta o Reino. Querer o Reino em nós e querer esta ação sustentadora de deus que orienta e dá sentido à vida. O Reino é de Deus, o sentido para o qual se orienta é o próprio Deus, de modo que, depende só dele. Muitas vezes falamos de construção do Reino de Deus, como se nossas mãos e nossos esforços pudessem edificar algo para o senhorio de Deus.

O que devemos construir de fato são estruturas sociais e econômicas que se assemelhem ou se aproximem àquilo que corresponde à vontade de Deus. Um exemplo, talvez, seria o caso de um cristão que acreditasse construir uma igreja e através dela construir o Reino de Deus. Claro que isto pode ser, mas a dinâmica do Reino é transcende a obra humana e requer, por exemplo, uma sociedade com menos desigualdades sociais. Mais do que nos edifícios, o senhorio de Deus se mostra nas estruturas sociais.

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