Por Padre Clemilson Teodoro Em Nossa Senhora

Maria e o mês de maio

“Louvando a Maria o povo fiel, a voz repetia de São Gabriel, Ave, Ave, Ave Maria”




A música que começa este artigo está em nossa memória, certamente todos já cantamos. Ela nos ajuda a recordar momentos especiais de nossa devoção a Maria, nos remete à nossa infância, nas pequenas comunidades rurais ou em nossas paróquias na cidade, quando as crianças, vestidas de anjos, coroavam a mãe de Jesus, colocando a palma em suas mãos e jogando pétalas de rosas, depois que o povo rezava o rosário.

Durante o mês de maio, o povo dedica várias festas e louvores a Nossa Senhora, as paróquias e capelas do interior se colorem de flores e luzes para honrar a mãe de Deus, de modo que maio se tornou símbolo de oração, louvores e coroação a Nossa Senhora.

Na medida em que o cristianismo foi entrando nas culturas pagãs, especialmente no norte da Europa, as festas foram sendo cristianizadas. As homenagens à natureza foram aos poucos se direcionando a Maria, a criatura mais alta e bela entre todas as mulheres.

Uma das primeiras pessoas, que temos conhecimento, que associou o mês de maio à figura de Maria foi Alfonso X, o Sábio, rei de Castela e León (+1284). Suas cantigas para as celebrações do mês de maio exaltavam a abundância de bens, de beleza, de luz e cores que se manifesta no mês de maio com a primavera no auge. Alfonso X via em Maria um modo para coroar dignamente e santificar na alegria nossa devoção à mãe de Deus e convidava o povo a invocar a Virgem Mãe de Deus para obter abundância de bênçãos materiais e espirituais.

A devoção ao mês mariano em Roma começou a tomar forma com São Felipe Néri (+1596). Durante o mês de maio, ele ensinava os jovens a honrar a Virgem Maria com os mais variados cânticos de louvores.

Ao longo de vários anos, as festas e louvores a Maria foram ganhando importância na vida e na devoção das pessoas, de modo que, partir do final do século XVII, ele começou a delinear-se como mês mariano.

Os frades dominicanos de Fiesoli, próximo a Florença, na Itália, começaram a dedicar alguns dias do mês de maio a Maria, com vários exercícios de devoção, orações e louvores. A partir de 1701 esta prática estendeu-se a todos os dias do mês. Nas crônicas do convento, os frades relatam: “quando chegam as famosas festas de maio, as pessoas cantam e fazem festas às divindades da natureza, por isso, também nós decidimos cantar louvores à Santíssima Virgem Maria... Não podemos deixar-nos superar pelos seculares”.

Durante o mês de maio, se cantava ladainhas em louvor à Virgem Maria e fazia-se a coroação da imagem de Maria com uma coroa de rosas; no fim do mês, era feita a oferta de um coração de prata. A devoção mariana no mês de maio aos poucos foi substituindo a rainha da primavera pela rainha do céu, com as mesmas festividades.

O mês de maio, como nós conhecemos hoje, com suas orações e louvores típicos, teve início com o Padre A. Dionísio – SJ, no ano 1725. Ele publicou em Verona, na Itália, o livro Mese de Maria. Era um guia para uma fervorosa vida cristã sob o olhar de Maria, propunha uma série de práticas devocionais para várias categorias de pessoas, a serem cumpridas em casa, onde se trabalha e se vive durante o dia, diante de um pequeno altar ornado com flores e luzes. Todos os dias, as pessoas rezavam o rosário, com as ladainhas e jaculatórias. No fim do mês, se ofertava o próprio coração a Nossa Senhora. Num outro livro devocional da época, o Padre Lalomia – SJ sugere que ao longo do mês de maio fossem lidas as virtudes e os privilégios de Nossa Senhora.

Em 1785, em Roma, o Padre Alfonso Muzzarelli – SJ, dá uma passo a mais e propõe que as celebrações do mês de maio fossem realizadas nas igrejas, de modo que o exercício se tornou mais comunitário. A proposta do Padre Muzzarelli foi acolhida em quase todas as dioceses da Itália. Assim, as festas marianas ao longo do mês de maio começaram a ser celebradas com várias ornamentações, tríduos, novenas e procissões.

A partir do ano 1800, com o florescimento do romantismo, as devoções marianas ficaram mais carregadas de sentimentos, as práticas foram enriquecidas com elementos da arte e da poesia. O rosário, que antes era ligado ao mês de outubro, se tornou característica principal do mês de maio. Ao longo da primeira metade do século XIX, o mês de maio como mês mariano se firmou na Europa e na América. A partir da proclamação do dogma da Imaculada Conceição (8 de dezembro de 1854), o culto a Nossa Senhora se tornou motivo de honra e começou a ser celebrado de forma solene e publicamente.

O mês de maio chegou a ser o mais importante dentro do ano litúrgico; se tornou uma das devoções mais caras ao povo cristão, praticado com fervor sincero e generoso.

A devoção, os louvores e orações ligados ao mês de maio nasceram da espontaneidade dos sentimentos das pessoas, sem preocupação direta em lançar raízes na liturgia e na palavra de Deus, de modo que aos poucos algumas dificuldades foram surgindo por causa de exageros.

A mudança de mentalidade, devido à evolução histórica, ao progresso da teologia e às reformas litúrgicas que foram acontecendo na vida da Igreja, exigiu também renovação das piedades populares. O Concílio Vaticano II acolheu este processo com seriedade e elaborou uma acurada reflexão sobre a devoção à mãe de Deus (cf. LG, cap. VIII), linha seguida também por Paulo VI com a Marialis Cultus.

A sensibilidade do povo cristão está muito próxima a tudo o que se refere a Nossa Senhora, Ela é acolhida como mãe protetora e fiel. A devoção marcou este sentimento em nossos corações. Os agentes de pastoral devem cuidar, no entanto, para que as piedades populares sejam manifestação genuína da fé e não simplificação das riquezas do cristianismo.




Escrito por
Padre Clemilson Teodoro
Padre Clemilson Teodoro

Presbítero da Diocese de Santo André, em São Paulo. Padre Clemilson nasceu em Caratinga, Minas Gerais, e entrou no seminário do Instituto dos Missionários da Imaculada Padre Kolbe, em Santo André, no dia 23 de março de 1998. Atualmente colabora com a Obra escrevendo matérias de formação para o Portal da MI.

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