Por Frei Aloísio Oliveira Em Lendo o Evangelho

Effatha: “Abre-te!”

Para a comunidade cristã, surdo é quem não ouve a Palavra de Deus e mudo é quem não professa a fé.




Effatha, que significa “Abre-te!”, é o que Jesus diz ao curar o surdo-mudo tocando-lhe os ouvidos com os dedos e a língua com a saliva. Certamente tais métodos soam estranhos e, de certo modo, até repugnante à sensibilidade moderna. Contudo, na antiguidade, acreditava-se nos poderes terapêuticos da saliva.

No texto de Marcos, sem negar a realização do milagre, o mais importante é o significado que adquiriu para a comunidade cristã que, inclusive incorporou o gesto de Jesus no rito do batismo.

Com efeito, desde os tempos mais antigos da Igreja interpretava-se que o surdo-mudo a quem os ouvidos são abertos e a língua liberada, representa a pessoa que recebe a fé. Pois, para a comunidade cristã, surdo é quem não ouve a Palavra de Deus e mudo é quem não professa a fé.

Assim, entendia-se que a saliva com que Jesus umedece a língua do mudo, devolvendo-lhe a fala é a comunicação da sabedoria de Deus, que revigora e dá sabor à vida do fiel tornando-o capaz de proclamar as maravilhas do Senhor, tornadas visíveis e acessíveis pela experiência da fé; o dedo que Jesus introduz no ouvido do surdo para romper o tapume da surdez simbolizava a comunicação dos dons do Espírito, que é o revelador do significado pleno da mensagem de Jesus Cristo (cf. Jo 14,26).

Nesse contexto, portanto, o fato de Jesus abrir os ouvidos do surdo significa que Ele tem o poder conceder o entendimento da Palavra indispensável à fé. Sem essa graça o ser humano é um surdo em relação ao Evangelho (cf. Mc 4,11-12).

Com isso não se nega a cura efetiva recebida pelo necessitado, mas simplesmente se afirma que ela se tornou símbolo real do milagre da fé que, nos dizeres de São Paulo, faz o cristão “revestir-se do homem novo” (cf. Cl 3,10).

A declaração final das pessoas que presenciaram a cura: “Ele tem feito tudo bem” (Mc 7,37a) mais que um elogio, é um louvor que recorda o relato final da criação, quando Deus, depois de ter criado tudo, “viu que era muito bom” (Gn 1,31a).

A continuação dessa mesma declaração afirma que a “obra boa” de Jesus consiste em “fazer os surdos ouvirem e os mudos falarem” (Mc 7,37b). Ora, isso recorda a salvação messiânica descrita pelo profeta Isaías: “Então, se abrirão os olhos dos cegos e os ouvidos dos surdos se desobstruirão.

Então, o coxo saltará como o cervo e a língua do mudo cantará canções alegres” (Is 35,5-6b). Isso significa que o “agir de Jesus é bom” porque, por Ele, renova-se a criação decaída. Em sua atuação se faz presente a redenção messiânica anunciada pelos profetas e, assim, surge de novo a aurora da criação.

Escrito por
Frei Aloísio, Ministro Provincial
Frei Aloísio Oliveira

É Ministro Provincial da Província São Francisco de Assis dos Frades Menores Conventuais e especialista em Sagrada Escritura.

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