Por MI Em Reportagem

Cristãos perseguidos

O caminho da fé, para muitas pessoas, é marcado pelo sofrimento


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Por Paulo Teixeira e Núria Coelho
jornalistas

Ir para a Missa de domingo com a família ou ler e seguir os ensinamentos da Bíblia são coisas que são possíveis de se realizar no Brasil sem grandes transtornos. Contudo, em muitos lugares do mundo os cristãos são perseguidos. Para Marcos Cruz, da associação Portas Abertas Brasil, “a perseguição ocorre quando uma pessoa não tem garantidos os seus direitos de professar livremente a fé. Existem países que não permitem conversões e em algumas regiões há extremistas que perseguem as pessoas dessas regiões. Muitos cristãos devem deixar suas casas e seus empregos por causa da fé e conviver com preconceitos”.

A associação em que Marcos atua presta apoio aos cristãos perseguidos e distribui material religioso. Portas Abertas estima que mais de 340 milhões de cristãos sofrem consequências de sua fé, por isso anualmente elabora uma lista de países em que há casos de perseguição. Na lista elaborada sobre os dados de 2020, Coreia do Norte liderou o ranking, seguida pelo Afeganistão; países de maioria cristã como México e Moçambique também figuram na lista devido a grupos criminosos e extremistas que exercem a violência. Marcos Cruz lembra que as dificuldades são mais amplas do que se apresentam nas estatísticas.

“Na Nigéria, por exemplo, na parte norte do país não há perseguição, mas no sul os cristãos são incompreendidos; no Irã, as igrejas tradicionais podem pregar para cristãos e em outras línguas que não sejam o farsi, idioma local. Contudo, são severamente proibidas conversões e pregações a mulçumanos”, destaca. Outra lista que só aumenta e causa certo espanto é publicada pelo Vaticano por meio da Congregação para a Evangelização dos Povos, que relata os nomes dos missionários assassinados em cada ano.

Em 2020 foram assassinados 20 missionários, entre religiosos e agentes de pastoral. O continente que mais mata seus missionários é a América. Foram oito casos, sendo cinco sacerdotes mortos em situação de roubo e violência; e três crianças e adolescentes da Infância Missionária assassinados na Nicarágua, país que passa por grandes instabilidades.

Como era no princípio

As incompreensões e hostilidades contra os cristãos datam praticamente do início do caminho de fé dos seguidores de Jesus. No Novo Testamento, além dos alertas de Jesus sobre perseguições, os Atos dos Apóstolos narram no capítulo 6 a intolerância contra a pregação de Estevão, que culmina com a morte dele. Daniele Roque, professora de artes, lembra que as hostilidades marcaram os primeiros séculos do cristianismo e que “embora houvesse inimizade e perseguições, como, por exemplo, quando por volta do ano 64 o Imperador Nero acusou os cristãos de um incêndio em Roma, foi no século III que se estabeleceu uma sistemática perseguição e execução dos cristãos”.

Nesse período o pensador cristão Tertuliano formulou a frase: “O sangue dos mártires é semente de novos cristãos”. Para a professora Daniele “temos até hoje preservados os túmulos de diversos mártires nas chamadas catacumbas que eram cemitérios subterrâneos nos quais os cristãos se reuniam para rezar de forma segura, às escondidas, para recordar seus heróis da fé”.

“As pinturas que adornam esses túmulos não expressam falimento ou sofrimento, mas retratam os mártires na glória de Deus, como triunfo da fé sobre a violência”, conta Daniele. Além das pinturas, há textos antigos que relatam o assédio aos cristãos. “As Atas dos mártires de Lião falam de uma verdadeira epidemia de violência, de um massacre indiscriminado contra mulheres e crianças, inclusive; as cartas de Santo Inácio de Antioquia testemunham a viagem do bispo da Síria até Roma para ser sentenciado. Em uma das cartas expressou sua visão da morte por perseguição: ‘Sou trigo de Deus. Quero ser triturado e moído pelos dentes das feras, a fim de me converter em pão puro de Cristo’”.

O Papa Francisco, ao visitar uma das catacumbas romanas, disse: “Podemos pensar na vida dessas pessoas que tinham que se esconder, que tinham essa cultura de sepultar os mortos e celebrar a Eucaristia aqui... É um momento difícil da história, mas que não foi superado: também hoje existe. Existem tantas”.

O Papa fez questão de estar presente na perseguida comunidade cristã do Iraque. Esperavam o Papa há 20 anos, porque devido às dificuldades políticas o Papa João Paulo II não pôde pisar naquela terra no contexto do Jubileu do ano 2000. Ao rezar entre escombros e saudar os habitantes, o Papa Francisco lembrou: “Mesmo em meio à devastação do terrorismo e da guerra, podemos ver, com os olhos da fé, o triunfo da vida sobre a morte”, disse Francisco, convidando a “restaurar não apenas os edifícios, mas antes de tudo os laços que unem comunidades e famílias, jovens e idosos”.

Rodrigo Arantes faz parte da Fundação Ajude a Igreja que Sofre que é uma ponte entre quem precisa de ajuda e quem pode ajudar. Ele conta um pouco sobre o apoio às famílias cristãs iraquianas: “No Iraque houve um grande trabalho para que os cristãos pudessem retornar à sua terra após os conflitos. Ajudamos a reconstruir casas, escolas, providenciamos alimentos e remédios, e toda a estrutura espiritual e psicológica para que as pessoas possam seguir a vida e se distanciar da espiral de violência. Desejamos, sobretudo, que as crianças cresçam sem desejo de vingança”.

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Formas de sofrimento

As dificuldades da sociedade em geral causam dor e sofrimento também às comunidades cristãs. Rodrigo Arantes conta que ajudar a Igreja no Brasil é apoiar as vocações, prover o básico para famílias pobres nas periferias das grandes cidades e também proporcionar a locomoção de agentes de pastoral e padres na Amazônia. “A Igreja sofredora tem muitas faces. Olhando para países no Oriente Médio e na África vemos que às vezes não é possível usar uma cruz no pescoço e nem se reunir livremente como aqui. No Brasil temos comunidades que sofrem, por exemplo, pela ausência da Eucaristia. Há comunidades na Amazônia que passam anos sem a presença de sacerdotes para celebrar a Eucaristia. É uma comunidade que sofre também”, aponta Rodrigo Arantes.

No Brasil há episódios de intolerância religiosa, são graves, são frequentes, mas são diferentes da perseguição religiosa. “Um aluno, por exemplo, que se sinta discriminado no Brasil, pode recorrer à direção da escola, à polícia e à justiça. Tem a quem pedir socorro. Nos países em que há perseguição não tem a quem recorrer. No Paquistão, por exemplo, tem a lei da blasfêmia em que alguém pode mentir que um cristão possa ter ofendido a religião islâmica e ser preso”, conta Rodrigo Arantes.

Incompreensão

Os cristãos de todo o mundo são convidados a estar em constante oração por aqueles que sofrem perseguições. No capítulo 12 dos Atos dos Apóstolos é narrada a forma milagrosa como Pedro saiu da prisão. Conta que “sentia a oração da Igreja”, a mesma que os que se sentem acorrentados hoje em dia podem experimentar como sinal de solidariedade. Além disso, é necessário que a sociedade e os diversos países se unam para evitar a intolerância religiosa.

Na Páscoa deste ano a catedral de Jacarta, na Indonésia, foi atingida por uma explosão que deixou diversos feridos. A Indonésia é o maior país islâmico do mundo e as minorias cristãs eram respeitadas, apesar de conflitos pontuais. Contudo, na última década, os ataques violentos às comunidades cristãs estão se intensificando. Outro exemplo de situação grave foi o ataque a uma igreja em Nice, na França, em outubro de 2020, que matou três pessoas. A França é um país de história cristã e que convive de forma pacifica com o Islã, mas que tem se tornado alvo de diversos ataques de matriz religiosa. Os atos de intolerância e desrespeito não podem ser ignorados, porque fornecem um terreno fértil para os extremismos que usam de ações violentas.

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Beatos mártires na Argélia

Crer e permanecer

Em maio de 1996 uma comunidade de monges cistercienses foi morta em Tibhirine, na Argélia. Os sete religiosos franceses viviam em uma comunidade estabelecida há mais de 50 anos e que convivia bem com a população islâmica local, trabalhando juntos na agricultura e oferecendo assistência médica. No início da década de 1990, grupos extremistas começaram a agir com violência contra a população que não compactuava com a visão radical do Islã e contra estrangeiros. As autoridades pediram que os monges se retirassem para preservar a vida, mas decidiram permanecer como sinal de resistência. Após serem sequestrados, os sete monges foram decapitados. Entre 1993 e 1994, o superior da comunidade, Padre Christian de Chergé, escreveu o seu testamento em que um trecho diz assim: “Se algum dia me acontecesse – e isso poderia acontecer hoje – de ser vítima do terrorismo que parece querer abarcar agora todos os estrangeiros que vivem na Argélia, eu gostaria que a minha comunidade, a minha Igreja, a minha família, se lembrassem de que a minha vida estava entregue a Deus e a este país. Que eles soubessem que o Único Mestre de toda a vida não me abandonaria nesta brutal partida”.

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