Por O Mílite Em Reportagem

O desafio de recomeçar

Ao longo da vida, nos deparamos com situações que nos fazem questionar o caminho que seguimos e às vezes só temos uma opção: começar de novo

Pixabay
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Por Ana Cristina Ribeiro e Núria Coelho

O ano de 2020 foi marcado por uma situação que ninguém esperava. A pandemia do coronavírus mudou a vida de muitas pessoas. Encontros virtuais ganharam destaque, reuniões e aulas on-line foram meios fundamentais para profissionais e estudantes. Foi um ano desafiador, de perdas, vitórias e recomeços.

Começar um ano novo nos proporciona uma nova chance de fazer diferente, de criar novos planos, de criar novos propósitos e esperamos que 2021 seja um ano de recomeços.

Recomeçar é muito importante. A gente recomeça todos os dias, quando acordamos e abrimos os olhos ao levantar. E a qualidade mais relevante que encontramos no ser humano é a de enfrentar o novo, a resiliência frente à perda.

Bernardete Pacheco, mestre em Psicologia Clínica pela PUC de São Paulo, com especialização em Psico-oncologia, aponta que expressar os sentimentos faz parte do processo de superação e é saudável para quem quer recomeçar após a perda: “Para que a gente desenvolva bastante resiliência é importante usar e abusar da nossa expressão. Estudos mostram que, quanto mais a gente se expressar, conversar, trocar, comunicar as nossas dificuldades e nossas dores, tanto melhor é a nossa resposta no enfrentamento.”

Ciclos de encerramento são fundamentais e podem ser a porta para um recomeço. A vida é feita de ciclos e passar por eles é permitir-se amadurecer e acolher o novo que sempre está por vir. Adiar esse novo pode ser saudável se for para uma reflexão e preparação. “Isso acontece porque a gente não sabe que o fundo do poço é maravilhoso, a gente não conta com o lado criativo da depressão e a gente tem dificuldade de se abrir para o novo. A palavra crise em grego significa ‘porta’, ‘oportunidade’ e tem grandes desafios aí: medo, ansiedade, a solidão, o apego ao sofrimento. Quando a gente protela o recomeço para planejar, se preparar, refletir e aprender é saudável. Agora, se procrastinamos o recomeço não é saudável”, destaca Bernardete.

Pedi para Deus me deixar viva

O processo de aceitação para uma vida nova foi muito importante para Romilda Gabriel Gomes de 44 anos. Em 2004, ela deixou o casal de filhos na casa da mãe e saiu com o esposo para um passeio com outros seis casais amigos de longa data.

Já no retorno, optaram por disputar uma corrida de carro com um casal amigo em uma rodovia. Romilda, que não tinha o hábito de usar o cinto de segurança, não imaginava que sua vida mudaria a partir daquela brincadeira. O carro capotou e a lançou bruscamente para fora. Ela acordou no hospital e recebeu a notícia de que estava paraplégica. Na época, o filho Mateus tinha 2 anos e Nathalia apenas 11 meses. A primeira preocupação que Romilda teve foi de como cuidaria dos filhos, já que a vida dela iria passar por um processo de reabilitação bem longo. “Antes eu tinha uma vida normal, trabalhava, cuidava dos meus filhos, passeava muito com a minha família, amávamos viajar. Após o acidente tudo mudou. Passei a depender totalmente dos outros. Até para tomar banho, comer, ir ao banheiro. Foi como se tivesse nascido de novo e era um bebê, totalmente dependente de cuidados”, conta Romilda.

O processo de recomeço foi difícil, doloroso e muito desafiador. No meio do tratamento, outra situação fez Romilda duvidar da vida: “Meu marido me deixou para viver outro relacionamento. Me deixou na cadeira de rodas com duas crianças pequenas para cuidar. Mas ao invés de me entregar a uma profunda tristeza, decidi recomeçar”, afirma.

O recomeço dela aconteceu a partir dessa segunda perda. Ela foi morar com a mãe que a ajudou muito nos cuidados com os filhos e a ganhar independência nos afazeres domésticos. “Tive que reaprender tudo. A limpar a casa, lavar roupa, cuidar das crianças. Pedi a Deus muita força para não desanimar e Ele me ajudou a recomeçar. Pedi para Ele me deixar viva para poder ver os meus filhos crescerem e Ele me deu essa graça”, destaca.

Atualmente Romilda faz fisioterapia, fez natação e chegou a competir. Ela continua fazendo as atividades domésticas, mas ainda encontra desafios: “Não consigo sair sozinha para os lugares. Preciso de alguém para ir junto comigo. A locomoção é difícil e é o meu maior desafio atualmente”.

Respirar, arregaçar as mangas e ficar de bem com a impermanência são indispensáveis para que uma nova página da vida seja escrita. Segunda a psicóloga Bernardete, nós seres humanos temos um apego ao estático, ao que é velho, ao que já é conheci¬do: “Ficar de bem com a impermanência, lembrar que os ciclos de perdas que a gente vem sofrendo costumam ser benignos, eles costumam fazer um ciclo natural. Nosso organismo, tanto físico como psíquico contém dinâmicas que tendem ao reequilíbrio. Isso é uma força natural e instintiva”, afirma a psicóloga.

A força da fé

A técnica em ótica, Arlene Jucá Barbosa, foi diagnosticada com câncer nos ossos em 2013, aos 37 anos. A reação de Arlene foi de agressividade, resistência e não aceitação. Ela não sabia que rumo tomar a partir daquela notícia que mudou os sonhos e projetos que ela havia traçado: “Foi um dos piores dias da minha vida. Fiquei sem chão, sem rumo, como se estivesse vivendo um pesadelo, numa escuridão sem saída”, lembra.

Apesar de trabalhar na área da saúde, Arlene não tinha o hábito de ir ao médico e, quando começou a sentir dores, achou que não seria nada grave. Foi quando recebeu a notícia de que o câncer estava avançado e ela teria de passar por um tratamento invasivo e muito doloroso. “Tive muita fraqueza, enjoos, cansaços, fadigas e a queda de cabelos. Cheguei a pensar que não ia resistir. Quando estava me sentido mais forte, vinha outra seção de quimioterapia. Tive que amputar a perna direita e isso e a queda de cabelo tiraram minha autoestima, meus sonhos e a vontade de viver”, recorda Arlene.

“Depois do processo da quimioterapia, tive que passar pela reabilitação. Fui aprendendo a me equilibrar novamente e ganhei forças para reaprender a andar. Fiz inúmeras terapias para ajudar no processo. E com o apoio da família me senti forte para recomeçar”, relata emocionada ao recordar os 4 meses de internação.

Arlene estava muito revoltada e o relacionamento com Deus já era distante, após a doença esse distanciamento se intensificou: “Na AACD tinha uma capelinha, onde eu ia todos os dias rezar. Eu não me considero um pessoa de muita fé, me sentia sem fé. Certo dia, olhando para o lado de fora, vendo as pessoas andando e vivendo, eu vi Deus e percebi que eu queria lutar pela vida. Ali vi a minha fé reascender e passei a lutar para viver essa nova vida que Deus tinha para mim”, conta emocionada.

O recomeço de Arlene deu-se em 2018, após a reabilitação, quando foi morar sozinha. Atualmente Arlene faz fisioterapia, fisioterapia aquática, artesanato e voltou à faculdade.

Recomeçar após o luta

A pandemia foi um fator que marcou a história do mundo em 2020 e nos fez repensar sobre o valor da vida e do estar juntos.

Débora Saldanha tem 47 anos e trabalha na produção da Rádio Imaculada. Foi uma das milhares de pessoas que sentiu a dor da perda de um ente querido por causa da Covid-19. Seu esposo, Márcio Saldanha, foi contaminado pelo vírus e após 19 dias na UTI, no dia 22 de junho, foi a óbito por causa da doença, aos 50 anos.

O recomeço após o luto tem acontecido gradativamente na vida da Débora e das duas filhas. “O que me manteve em pé até agora foi a fé e a convicção de que a vida após a morte tem outra dimensão e aqui, a vida tem que seguir. Tenho duas filhas elas precisam de mim e eu pre¬ciso delas, pois elas são frutos de uma vida inteira com ele”, destaca.

O apoio da família, dos amigos foi essencial no processo de recomeço da Débora. Mesmo à distância, sem abraços, o apoio foi essencial e a tecnologia mais uma vez teve um papel importante nesse momento difícil. “O Márcio era pai, era marido, amigo e cuidava da casa e das meninas. Era meus braços e minhas pernas. Após a ida dele, tive que recomeçar uma vida nova: fazer tudo que ele fazia, dirigir, cuidar da casa e trabalhar fora. No início esse recomeço foi difícil, fazia as tarefas que ele fazia chorando, mas hoje me sinto forte. Sigo minha vida, pedindo força a Deus”, ressalta.

Em junho de 2019, a funcionária pública, Cledja Aureliano Teixeira Silva de 30 anos, não imaginava que sua vida passaria por uma perda tão repentina. No dia 6 de junho de 2019 seu esposo, Ícaro Carlos Oliveira, a deixou no local de trabalho e, como de costume, seguiu para o trabalho dele como motoboy. O princípio normal do dia não indicava em nada a surpresa de que no início da noite o rapaz seria vítima de latrocínio. “Estávamos há 15 anos juntos, ele era meu primeiro namorado e meu grande amor. No dia seguinte seria o aniversário dele, ele faria 30 anos. Tínhamos preparado tudo para comemorar seu dia. Por volta das 18h, chegaram na minha casa dois policiais procurando por familiares dele. Me levaram até o local do assalto e vi meu esposo morto. Naquele momento eu não sabia qual seria meu lugar no mundo, pois meu mundo era ele”, desabafou.

Para recomeçar Cledja precisou de ajuda psiquiátrica. Tomou medicação para depressão e aos poucos conseguiu se reerguer: “Tive o apoio da família e dos amigos e isso foi essencial. Fiquei afastada um tempo do trabalho, mas aos poucos as coisas foram tomando seu rumo. Hoje eu sigo a vida, trabalhando, cuidando dos meus filhos. Não tem sido fácil, mas pre¬cisei recomeçar. Deus me amparou e tudo tem dado certo”, conta.

Queremos que 2021 seja marcado pelo recomeço, mas a psicóloga Bernardete lembra que o recomeço não segue o calendário: “Tem dois dias que é impossível recomeçar: o ontem e o amanhã; o melhor dia para recomeçar é o hoje, da melhor maneira que você conseguir. As mudanças podem ser radicais, podem ser graduais, mas o que importa é o caminho que você trilhou para acontecer o novo. O que ajuda é começar o ano e já começar hoje esse ano, se reconectando com o sentido sagrado da vida, com o nosso centro sagrado”

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