Por Ana Cristina Ribeiro Em Reportagem Atualizada em 23 NOV 2020 - 10H31

Racismo: uma questão social

A discriminação racial, sentida em todas as áreas, tornou o negro excluído da sociedade, da educação e, consequentemente, do mercado de trabalho .

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Neste mês comemora-se, em 20 de novembro, o Dia da Consciência Negra. A data é celebrada no Brasil em memória da morte de Zumbi dos Palmares. Contudo, a expressão "Consciência Negra" vai além de uma celebração instituída no calendário. Ela designa a percepção histórica e cultural que os negros têm de si mesmos e representa a luta que eles enfrentam contra a discriminação racial e desigualdade social. Em 1532 foram trazidos ao Brasil como escravos os primeiros africanos. Em 1850 foi colocado um fim no tráfico negreiro por meio da Lei Eusébio de Queiroz. Mesmo com o fim da escravidão, em 1888, a busca dos negros por direitos iguais jamais cessou.

Mas o racismo não é uma luta só dos brasileiros. Países colonizadores e colonizados, em sua maioria, apresentam essa triste realidade. Vimos nos últimos meses muitos protestos antirracistas em todo o mundo. A morte de George Floyd, em 25 de maio deste ano nos Estados Unidos, causou comoção e revolta em diversos países. Foi uma brutalidade vista em todos os meios de comunicação: quatro policiais o sufocaram até a morte e uma única frase ecoou em todo o mundo: “Eu não consigo respirar!”. O negro é discriminado e sofre diariamente pelo chamado bloqueio de oportunidades de crescimento profissional pelo simples fato de ser negro.

Racismo e saúde mental

O racismo também é um fator de risco para a saúde mental, o assunto é pouco debatido nessa área, mas não é esquecido. Alexander Bez, especialista em relacionamentos pela Universidade de Miami (UM), fala sobre os impactos que uma atitude racista pode causar à pessoa que sofre o preconceito: “Quando falamos racismo, há uma relação com saúde mental porque as situações de preconceito são associadas a fracasso”. Segundo o especialista, a formação do caráter independe de qualquer condição de cor, etnia ou situação econômica. “Caráter é formação pessoal de cada um. Tanto é que tem pessoas que não têm condições econômicas privilegiadas, mas têm um caráter excelente”, explica.

Educação e criação são determinantes para a formação de uma pessoa, todavia, a formação do caráter é algo ligado ao processo da criação familiar, declara Alexandre: “Em primeiro lugar é importante fazer uma diferenciação entre educação e criação: Educação é você saber conversar, fazer uma conta de matemática, é chegar a um restaurante e saber comer a comida francesa ou comer um pão com manteiga na lanchonete da esquina da mesma maneira, isso é educação. Quando a gente fala em criação é outro processo. O caráter está intrínseco no processo da criação familiar. É no processo de criação que a pessoa aprende que todas as pessoas são iguais”, reforça.

O psicólogo também destaca que racismo, discriminação e preconceito são assuntos que devem ser debatidos em todos ambientes de construção social: família, escola, trabalho e grupos religiosos: “Quando deixamos de falar sobre uma questão social como racismo, estamos negando que ele existe e que é um problema. Então é importante falar de assuntos polêmicos sim, para que eles sejam desmistificados”, conclui.

Representatividade


Dançarina Ester Lopes


A discriminação, sentida em todas as áreas, tornou o negro excluído da sociedade, da educação e, consequentemente, do mercado de trabalho. Essa exclusão, através de muita luta, foi aos poucos diminuindo e o negro foi encontrando lugar nos esportes, nas artes, mas ainda assim não tinha espaço em algumas instituições como as universidades, por exemplo.

Ester Lopes é dançarina e pesquisadora com foco nas relações de corpo, gênero, raça e classe. Trabalha como arte educadora e é instrutora de Pilates. Faz parte do coletivo artístico As Caracutás, coletivo que pesquisa as danças brasileiras e afro-brasileiras contemporâneas. Está pleiteando vaga no mestrado para defender a tese sobre a representatividade negra nas universidades de dança no Brasil.


Ester Lopes

Como arte-educadora e pesquisadora, Ester sente falta da representatividade de autores e autoras negras no processo educacional: “Acho importante trazer autores negros, porque não só os docentes precisam estar lá, mas também os discentes precisam se ver lá, se sentir representados nas biografias. O aluno aprende também a partir da imagética que é criada, então, se a gente só cria imagética eurocentrada, por uma vertente de pensamento, a gente perde a oportunidade de pluralizar o ensino e de entender que existem outras culturas que também são importantes estar naquele currículo”.

Na graduação Ester diz ter tido pouco contato com autores e autoras negras, e todas as vezes que tiveram discussões sobre o tema foram embates muito profundos: “O racismo é uma questão das pessoas não pretas. As pessoas brancas precisam dialogar sobre isso, precisam entender e perceber que enquanto só as pessoas negras estiverem querendo seus direitos básicos e do outro lado não houver uma escuta ativa, pouco vai adiantar a nossa luta. É uma luta que precisa ser combatida pelo outro lado que inventou tudo isso, toda violência racial, a falta de oportunidades. Pensar em como combater de dentro para fora e de fora para dentro o preconceito racial, e o único caminho que eu consigo ver é o caminho da educação antirracista”.

Moda afro


Modelos usando acessórios feitos pela estilista Angela Lima

A estilista Angela Maria de Lima Castro fez da causa negra um jeito artístico de viver. Usou do talento de estilista para criar uma grife de roupas e acessórios femininos com estilo afro. A iniciativa surgiu da necessidade de valorizar as cores da cultura negra e dar visibilidade à moda afro na região de Itaperuna - RJ. Para Angela, o mais gratificante desse trabalho é ver as pessoas aderindo à moda e desfilando as roupas com estilo, sentindo-se bem ao mostrar essa tendência; O maior desafio é tornar as cores da moda algo para usar no cotidiano e não apenas em ocasiões especiais, como desfiles e festas.

O projeto Angela Lima Moda Afro e acessórios começou há alguns anos e mesmo em poucas pessoas as produções não param: “ Eu confecciono colares, brincos, roupas e turbantes. Tenho os modelos que desfilam quando há eventos e, por meio das redes sociais, divulgamos o nosso trabalho”, ressalta Angela.

A estilista também acredita que a discriminação racial deve ser combatida com denúncias e se possível com provas: “Nunca fui discriminada diretamente, mas sofro com os que passam por isso. Toda vez que um negro ou uma negra sofre injúria e discriminação por causa da sua cor, eu também sofro, me sinto vítima”.

Sobre a luta do negro por igualdade e oportunidade na sociedade, a estilista declara: “Não podemos nos calar diante das injustiças, vamos enfrentar o racismo de cabeça erguida, honrando os nossos ancestrais”.

Movimento




O Movimento Afro-Brasileiro de Itaperuna (MOABI), fundado em 1985, por inspiração das historiadoras Maria Beatriz Nascimento e Lélia Gonzales, mulheres negras e protagonistas na ocupação de espaço de negros nas universidades brasileiras, surgiu da necessidade de discutir a questão racial, de denunciar o racismo e ser uma organização formal para ocupar lugares de fala e luta contra o racismo estrutural.

A iniciativa que atua no município de Itaperuna - RJ é dirigida por José Luiz Ribeiro, professor da rede estadual de ensino do Rio de Janeiro. O movimento conta com a colaboração de sócios que contribuem financeiramente com a manutenção da instituição. É um espaço com direção, com estrutura jurídica preparada para combater o racismo entranhado em nossa sociedade: “Nós do MOABI estamos nas escolas, escolas técnicas, nas praças e em todo, ou qualquer lugar que esteja aberto a um debate que fortaleça a luta conta o racismo”, reforça o líder do movimento.


Grupo MOABI

Para José, as manifestações são importantes porque chamam a atenção da opinião pública. Ações na justiça, ações de conscientização política também ajudam as pessoas a não colocarem pessoas autoritárias, racistas, homofóbicas e fascistas no poder.

O professor também ressalta a importância de não deixar de denunciar atitudes de discriminação racial: “Não podemos naturalizar esse tipo de coisa. Protestar, denunciar, procurar ajuda na justiça, apesar de em muitas situações ela não estar do nosso lado, mas é preciso denunciar. Não se calar. Infelizmente essa é uma luta que iremos travar por muitos e muitos anos e ainda tem muito o que fazer no judiciário, executivo e legislativo em prol de uma sociedade mais igualitária”.

O movimento negro representa resistência e ao longo dos anos foi responsável por conquistas, como a abolição da escravatura. Hoje, os movimentos continuam a lutar por igualdade e respeito: “Quando um negro sofre racismo esse racismo é estendido a toda população negra. Direta ou indiretamente todos sofremos racismo. Todos são vítimas dessa atitude, exceto o racista. A dor do outro negro é a dor de toda a população negra”, finalizou José Luiz.

O negro na sociedade hoje


Paulo Cardoso, radialista da Rádio Imaculada


O paulistano Paulo Cardoso Pereira, radialista com formação em audiovisuais, sofreu discriminação racial desde a infância. A visão que o radialista tem sobre a questão ainda é muito dura. “Em muitos lugares aqui no Brasil o negro é como uma nota falsa, não tem valor nenhum, não vale nada, é inválido. O racismo está enraizado no Brasil. É um racismo estrutural e quando você sofre esse tipo de preconceito é como sofrer um acidente ou tomar um tiro, a diferença é que é uma ferida que não cicatriza”.

Paulo cresceu na Zona Leste de São Paulo e a primeira vez que passou por uma situação de preconceito racial foi numa brincadeira com os amigos da vizinhança: “Quando mudamos para o bairro em que moro até hoje, só a minha família era negra. Cresci entre crianças brancas, sofria preconceito, mas nunca entendi ao certo o que era. Numa dessas brigas fui chamado várias vezes de macaco e certa vez cheguei chorando em casa. Meu pai perguntou o que tinha acontecido e eu disse. Depois de ter resolvido o problema, meu pai me explicou sobre o que era racismo e só ali eu me dei conta de que estava passando por uma situação de discriminação racial”.

Uma das lições mais nobres sobre como superar o preconceito racial Paulo aprendeu com a sua catequista Neusa: “Ela me ensinou a ser negro, ser forte, ser resistente perante situações de preconceito. Nunca me esqueci dessa grande lição que ela me deixou”, relembrou.

Infelizmente a questão do racismo acompanhou Paulo em diversas fases da vida, na infância, adolescência, na vida adulta, em relacionamentos amorosos e no cotidiano; ele ainda sente que algumas pessoas agem com preconceito: “Você anda na rua, pessoas te olham torto porque acham que você é ladrão. No ônibus, tem gente que ainda olha diferente e se você senta ao lado das pessoas, tem delas que se sentem incomodadas”. Paulo ressalta a importância de atitudes adequadas nas famílias para superar o problema. “O racismo é estrutural, vem da formação de caráter. Uma criança não nasce racista, ela se torna racista a partir da criação familiar”, conclui.




Escrito por
Ana Cristina
Ana Cristina Ribeiro

Graduada em Jornalismo e licenciada em Letras, atua no Departamento de Redação da MI como jornalista responsável pela revista "O Pequeno Mílite" desde 2016.

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