Colunista

O cristão e as fake news

Numa época em que as rápidas conexões permitem a comunicação instantânea, devemos nos surpreender que a desinformação tenha alcançado tanto espaço e paute até mesmo os relacionamentos familiares

Paulo Teixeira

Escrito por Paulo Teixeira

14 JUL 2023 - 00H00

Pixabay

Hoje em dia se fala muito das fake news, termo em inglês que se refere às notícias falsas. Fake news parte da mentira, mas vai muito além. Costuma-se dizer que “a mentira tem pernas curtas”, e aí entra a indústria da fake news que é um complexo mecanismo técnico, publicitário, político e comunicacional que cria, divulga e impulsiona notícias falsas. A atual polarização política, por exemplo, parece ser a luta do bem contra o mal e muitos a vivenciam assim, mas, na verdade, é o resultado de ampla manipulação das informações que visa opor pessoas.

A serpente

O Papa Francisco, comentando Genesis 3,1-15, na mensagem para o Dia Mundial das Comunicações de 2018, ressalta que a mulher desconfiou de Deus devido às informações falsas da serpente: “nenhuma desinformação é inofensiva; antes, pelo contrário, fiar-se daquilo que é falso produz consequências nefastas. Mesmo uma distorção da verdade aparentemente leve pode ter efeitos perigosos”. Um fato curioso é que a serpente conversou com a mulher. Dialogou, expôs um problema e uma solução, instigou a mulher. Mas, a priori, uma pessoa racional não daria ouvidos a uma serpente. Da mesma forma, a pessoa racional, e o novo homem renascido em Cristo pelo Batismo, não deveria dar ouvidos ao que não corresponde à realidade e ao que não corresponde à fé, como as notícias falsas. Mesmo sendo vítima delas, o cristão não deveria ser um propagador. Segundo o Papa: “é preciso desmascarar uma lógica, que se poderia definir como a ‘lógica da serpente’, capaz de se camuflar e morder em qualquer lugar. Trata-se da estratégia utilizada pela serpente ‘o mais astuto de todos os animais’, como diz o livro do Gênesis” (cf. 3, 1-15).

A verdade

O cristão se pauta pela verdade. No Antigo Testamento ela corresponde à fidelidade à aliança, no Novo, Jesus é a plenitude dessa aliança. O Evangelho de João, por exemplo, fala de verdade desde o prólogo e a retoma em momentos marcantes como no encontro de Jesus com a Samaritana. O versículo-chave para compreendê-la é João 3,16: “Deus amou tanto o mundo a ponto de dar o Seu Filho unigênito”. Esta é a verdade do mundo e da história, a rocha indiscutível sobre a qual se constrói a vida, o fundamento irrenunciável de todas as certezas humanas, existenciais e históricas. Quando, em João 14,6, Jesus se autodeclara como “o Caminho, a Verdade e a Vida” é a revelação do amor do Pai. Não é uma verdade abstrata, mas concreta, porque Jesus viveu mostrando visivelmente, tangivelmente, o amor de Deus. Sobre essa profunda expressão Bíblica, o Papa João Paulo II, destaca na Encíclica Veritatis Splendor, 2: “A resposta decisiva a cada interrogação do homem, e particularmente às suas questões religiosas e morais, é dada por Jesus Cristo mesmo, aliás, é o próprio Jesus Cristo [a resposta]”. Jesus é a mensagem integral de Deus. Os cristãos seguem a Jesus e nos primeiros séculos muitos foram martirizados por essa adesão irrenunciável a Jesus. Hoje também muitos cristãos são perseguidos em diversas circunstâncias. E nas voltas da história muitos cristãos se tornaram perseguidores. Hoje, aderir a Jesus e assumi-Lo como a verdade da vida impõe o desafio cultural de não deixar com que as fake news tenham mais importância na vida do que a Boa-notícia que é o Evangelho. Leia MaisO Papa e euPromoção Fidelidade: Nossa Senhora, Virgem do SilêncioMilícia da Imaculada prepara festa em homenagem a seu fundadorDeus está do lado dos oprimidos

O Cristo

Sobretudo após os dois últimos processos eleitorais temos famílias e comunidades feridas devido às polarizações e o clima de uns contra os outros. De fato, muitas vezes faltou debate na sociedade, comunidades e nas famílias, e ao invés da troca de ideias, foi utilizado o amplo ataque. Isso é triste e é evidente. Considero mais dramático pensar que boa parte desses ataques foram abastecidos por informações falsas, por notícias manipuladas, por publicações na internet impulsionadas por pagamentos e sem relação com a verdade. Sobretudo nas comunidades e famílias, as notícias falsas não deveriam ter grande impacto e, de forma nenhuma, serem propagadas porque o que une as pessoas na comunidade e na família deveriam ser valores sólidos baseados na verdade que é Jesus. O Evangelho de João nos lembra de elementos importantes para o seguimento de Jesus. Em um mundo de muitas luzes de espetáculo e de abundantes trevas, Jesus é a luz do mundo (Jo 8,12); Num mundo onde muitos se colocam como mestres e influenciadores, Jesus é o bom pastor que guia, protege e dá a vida (Jo 10,11-16); num mundo de desorientação, mentiras e ataques à vida, Jesus é o Caminho, a Verdade e a Vida (Jo 14,6). O cristão deve assumir em si a lógica de Jesus que é a verdade.

Quem segue Jesus não pode seguir a lógica da serpente. O cristão deve propagar e divulgar o amor de Deus, se posicionar contra as injustiças, mas nunca alimentando o ódio. Nossa sociedade está, em diversas circunstâncias, embrulhada nas fake news. Devemos professar a fé e assumir que Jesus é a verdade da nossa vida. Que a fé ilumine nossa compreensão das notícias e informações para que não caiamos, pelas notícias falsas, na lógica da serpente.

Fonte: O Milite - 378

Escrito por
Paulo Teixeira
Paulo Teixeira

Jornalista formado na Faculdade Paulus de Tecnologia e Comunicação (FAPCOM), atua como editor responsável das revistas O Mílite e Jovem Mílite há mais de quatro anos. É autor do livro "A comunicação na América Latina".

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